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Perder uma mãe ...

... Luis Mateus

 
 

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Perder uma mãe...

Um exemplo de mulher, de zelo, aprumo, honestidade, simplicidade, uma mulher de trabalho, esposa dedicada, extremosa na lida da casa, boa avó, excelente mãe, humilde, generosa, ‘primeiro os outros depois eu’, mãos largas, querida por todos, doce, meiga, linda... Ultima morada: Hospital de Stª Maria. Nunca levei um choque tão grande na vida, como no dia 27 de Junho de 2011 ás 23h45. Foi-se toda a esperança natural de quem não quer aceitar o que o injusto destino já me ia avisando à semanas. Perder uma mãe em muito pouco tempo, sem estar à espera e minimamente preparado, foi como ver areia fina escoar pelos dedos sem conseguir fechar a mão. Falar com o padre da paróquia, a seguir com o bispo, ser encaminhado para o Papa e este dizer para rezar!... é sofrer um drástico golpe ao que o meu pai chama de “núcleo duro”. “O fim do terramoto”, palavras do meu pai. Nunca chorei de maneira tão esquisita e dolorosa! Fiquei manco e tenho medo de ficar sem andar! Não se está preparado para uma rasteira destas, aos 20, 30 ou 40 anos!!

Afinal isto não acontece só aos outros! Certamente que me vai ficar para sempre na lembrança, as ‘viagens’ casa - hospital e vice-versa. O coração aperta ainda nem estacionei o carro no parque, entro pelo serviço de neurologia a dentro, como que se fosse atrasadissimo, em passo acelerado... Vezes sem conta perguntei ao incansável do meu pai: “e notícias?” A resposta era sempre a mesma: “Nada de relevante”, “Tudo negativo”, ou pior que isso, falsas expectativas dadas por médicos à nora. Os braços magoados, as mãos sem reação, a respiração fora do normal, os olhos fechados, o chamar pela minha mãe sem resposta, sentir o cheiro da minha mãe e pensar se será a ultima vez, a pele gelada, a face deformada... Estamos habituados a ir aos velórios e funerais dos outros, não dos nossos. A indiferença de alguns, as palavras banais e da praxe de outros e o apoio extraordinário de poucos e de um ou outro que não esperavamos! Só quem um dia já passou por isto, sabe dar o valor ou dizer as palavras mais sensatas e acertadas. Nenhumas palavras podem consolar ou amenizar a dor. As lágrimas desobedecem quando temos de as controlar. Estar no velório de alguem como a nossa mãe, é sentir o olhar de pena dos outros queimar a nossa face, é querer estar egoisticamente ali sózinho, mas ao mesmo tempo ter a sala cheia de pessoas queridas, espalhadas por aquele jardim de flores... Perder uma mãe é... sentir frio, sede, dor constante, é o doce ser amargo, é sentimento de culpa pelo que ficou por dizer ou fazer, é ter de ir trabalhar e nos momentos mais difícieis, ter cara normal e mostrar ter a força que todos recomendam, é não gostar de ouvir palavras como “partir” ou “saudade”... é ter desorientação, falta de discernimento, é incapacidade de oferecer proteção contra a dor de pai ou irmã. Perder uma mãe é querer conversar mais com o outro alicerce, sentir a dor do meu pai (foram 40 anos), tortura o estado de espírito. É andar num constante carrocel de emoções, ora estar a rir com um amigo de uma qualquer situação banal, ora 5 min depois, já sozinho, estar completamente na mer..., é estar quase sempre com os mesmos pensamentos presentes, como por exemplo, o facto de já não existir quem me viu nascer e me criou, quem me aturou, quem aparou todas as minhas asneiras. Passam pela cabeça deduções obvias mas estranhas ao mesmo tempo. Estou numa situação diferente. Os outros tem mãe e eu não! Faz-me confusão estar próximo de algumas mães com quem lido mais regularmente. São mães de amigos ou familiares e eu já não tenho a minha!! Queria saber onde estás, se estás bem de saúde e se estás feliz.. Queria um sinal teu por mais pequeno que seja. Dava tudo por um beijo teu neste momento. Mas não é possível. D á vontade de trocar a os adjetivos “duro” ou “difícil” por palavreado impróprio. Apetece-me abraçar um prédio de 100 andares e derruba-lo à força!! Mas não se pode. Prefiro pensar que ganhei um anjo da guarda e não lhe quero dar motivos para, onde quer que esteja, ficar triste. Amo-te muito Mãe!

Luis Mateus

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