escritos luis mateus


Luis Miguel Neves Mateus - Escritos


/ ano: 2024 /


Óscares para pessoas que eu conheço


Aqui jazem os Óscares para as pessoas mais barrocas e pitorescas que eu conheço: colegas de trabalho, amigos e alguns familiares também.

Os nomes são fictícios, as profissões também, tudo o resto foi autenticado pelo notário do meu amigo Fernando, onde ele não manda nada, eu que mando.
... e os nomeados são:

Administrativa Pilar, nomeada para “A mais calhandra”
Aqui está alguém, que parece gostar mais de estar sentada no epicentro do mundo, do que da própria descendência. Também parece gostar mais de um marido que não é o seu, mas pronto, acontece a quem procura. O problema é que muita gente desconfia, incluindo a mulher do marido, que não é marido dela. O seu hobby favorito é calhandrar todas as pessoas com duas pernas e gosta de o fazer como se não comesse à meses.

Enfermeira Magda, nomeada para “A mais obstinada”
A Magda diz que não faz ideia onde se encontram homens que valham a pena e também gosta do marido de alguém. Mas, pelo menos, não tem marido em casa como a administrativa Pilar da nomeação anterior. Tem dias que sim, outros que não. São quase alternados. Nos dias pares, perde um parafuso e nos ímpares, acha-o de volta. É mais teimosa que uma mula ferrenha ou uma porta casmurra e fuma mais do que o Titanic fumava pelas quatro chaminés.

Auxiliar André, nomeado para “O mais sorrateiro”, casado com a Doutora Vanda, nomeada para “Funcionária com mais pesadelos”
O auxiliar André, que vai para todo o lado sem carteira, é sorrateiro como um caçador no bosque. Gosta de vender sonhos. Vendeu um tão grande à doutora Vanda, que ela ficou com pesadelos recorrentes em que o marido a troca por alguém com mais apartamentos alugados e carros de coleção. Ela gosta que lhe esvaziem os bolsos numa estranha comunhão com ele, que gosta de os esvaziar. As dádivas do destino são para quem as procura! Olhar para este casal, é como ver tinta a secar, não se passa grande coisa. Se ninguém os vê a falar, onde guardarão as palavras por dizer?

Doutor Heitor, nomeado para “O mais Zezé Camarinha”, casado com a Auxiliar Valentina, nomeada para “A VIP mais abatida”
O Heitor é o doutor gigolô daquele hospital! Passa a vida a fazer malandrices, daquelas que não se fazem às esposas, mas afirma que ama muito a sua consorte, a auxiliar Valentina. Ela tem andado abatida, como os olhares deprimidos dos semáforos à chuva, mas sonha ser primeira-dama de alguma coisa, não interessa o quê. O problema é que ela, com um rabo habituado a bons sofás, não quer o marido naquela profissão (gigolô), mas no entanto, gosta muito de lagosta suada. Sacrifícios.

O Segurança Alfredo, nomeado para “O mais medroso“
O Alfredo é o macho mais Alfa de todos, mas só rosna. Com a esposa, a conversa é outra! Ela morde-o se ele não pestanejar como ela quer! Se ele pede, ela não ouve, mas se ela o chama e ele não escuta, ele aleija-se. É sempre assim, coitado! As duas frases que o Alfredo mais usa com a sua amada, são: “sim amor!” e “claro que sim amor”. Outras, terão de ser sinónimas destas duas. Ele tem medo dela, porque quando ela se enerva, fica com três metros de altura e caninos gigantes. Além disso, O Alfredo tem medo que a esposa o troque por um macho Alfa a sério, dos que mordem e têm a pilinha grande e ágil (a dele é mirrada e diz que está sempre de mãos enterradas nas algibeiras).

Bernardo (manutenção), nomeado para “O mais cara de pau”
Enfermeira Sofia, nomeada para “A que mais acredita no Pai Natal”
Giovanna (limpezas), nomeada para “A que mais acredita na Fada dos dentes”
O Bernardo, de pénis e testículos operários, é o caixeiro-viajante lá do hospital e tem duas namoradas como o Marco Paulo. Os três dão-se bem e são felizes. Elas, de tão organizadas que são, dizem que até seguem uma escala para dividir o marido. A dona Sofia, que é a dona mais oficial, trata mais do comer e da roupa lavada e a outra dona trata mais da cama e do que se faz em cima dela. Tenho cá para mim que: ou o Bernardo tem mais numerário que o tio Patinhas ou tem um martelo grande e grosso como o do Thor! É só um palpite.

Doutor Eurico, nomeado para “O que tem as maiores unhas dos pés”, casado com a Técnica de Análises Camila, nomeada para “A que mais ama o marido”
O doutor Eurico é um médico que abotoa a alma a toda a gente. Gosta de piscar o olho às clientes com curvas divertidas e a todas as que se vendem no Facebook. Assemelha-se a um cão velho que deixou de ladrar porque já não morde. Da esposa, a técnica Camila, ele só quer duas coisas: que esta lhe corte as unhas dos pés e finja que é uma pedra da calçada o resto do tempo. A dona Camila, quando não está a analisar nada, é costureira. Com os alfinetes das suas unhas, costuma comprar todos os meses, cremes para engordar o umbigo. Diz que ama muito o marido, no entanto, não sabemos se é este, o anterior, ou o que está na calha. Adiante.

Enfermeiro Francisco, nomeado para “O mais descuidado”, casado com a Farmacêutica Raquel, nomeada para “A que dá mais nas vistas”
O enfermeiro Francisco está quase reformado. Vive muito entediado como as palmas do deserto e pensa ao contrário como os moinhos que empurram águas para trás! Vive sem perturbações como quem já fez tudo e talvez morrer seja isto: já ter percorrido todos os caminhos! O Francisco compra muita coisa acima do preço. Aqui há uns tempos, imagine-se, quase que comprou um bebé a uma forasteira por descuido! A esposa, a dona Raquel, é licenciada em farmácia e tem muitos desequilíbrios. Com o objetivo de ser notada, cai ao chão com regularidade e no ridículo quase todos os dias. Não gosta de forasteiras, mas gosta muito de quiosques, daqueles que dão tudo a preço de nada.

Administrativo Paulo, nomeado para “Melhor marido secundário”, casado com a Enfermeira Laura, nomeada para “Quem melhor joga às escondidas”
O senhor Paulo, que vive de dores antigas, é o marido da enfermeira Laura que vive com pechisbeques modernos. O Paulo gosta de regar vasos sem flores e diz que deixa sempre tudo por elas, como o Zé Cabra. Ela diz que gosta de encontrar o silêncio na renda e no croché, mas é mentira! Ela adora é falar de coisas tremendas e ama a expressão “pra inglês ver”, embora nunca a diga. A coisa que a Laura mais gosta que o Paulo lhe faça pela manhã, é um café sem açúcar, sem leite, sem chávena e sem café. A enfermeira Laura é louca por fotografia e ama jogar às escondidas com o marido, mas sem ele saber! Enfim, um amor cheio de malabarismos e contrafações.

Auxiliar Sérgio, nomeado para “O mais tio Patinhas”
O senhor Sérgio sonha ser operador de caixa num mini mercado lá prós lados da Portela de Sacavém, onde se vêem os aviões a levantar. Diz que tem dois sentidos na vida: ver dinheiro a cair na conta e contar à esposa como foram as férias que passou sem ela. É poupadinho como uma dona de casa que poupa nas compras e no gás.

Administrativa Clara, nomeada para “A mais vulnerável”
A Clara é vulnerável como uma linda boneca de porcelana. Trabalha só em part-time, porque diz precisar de tempo livre para esmiuçar as redes sociais. É dona de um grande telemóvel, do tamanho do tempo que gasta com ele e gosta do tal aparelho, quase tanto como o marido. Também gosta de falar às cavalitas das pessoas porque a sua voz é meio baixa e ela sempre quis ter mais uns centímetros. Tanto saliva e rosna, como os mares que espumam pela boca, como sorri, como um tresloucado de navalha na mão. Tenho medo às vezes.

Doutor Nelson, nomeado para “O mais gabarola”
O doutor Nelson sonha em viver de rendimentos. É discreto mas seguro. Enerva-se com facilidade e gosta de dormir de barriga para cima, como as rotundas que vivem estendidas ao sol. Adora ver rabos redondos e sem cascas de laranja, principalmente o seu. Acha-se a última bolacha do pacote quando está na mó de cima e espuma pela boca como um anão danado, quando está na mó de baixo! Tem de se dobrar mais vezes, a ver se ganha altura.

Segurança Ofélia : nomeada para “A mais intimidante”
A Ofélia é quem veste calças lá em casa. Sonha um dia seguir a carreira militar e é uma mulher que não gosta de maridos que encolhem os ombros. Apresenta perante os clientes e o esposo, uma postura ameaçadora, por vezes até, como quem ameaça usar uma arma nunca usada. Costuma xingar e bater no marido em público, mas só até ele estar confortável. Dia sim, dia não, costuma pespegar-lhe duas bofetadas e entre cada uma, aponta-lhe a porta da rua. Ele não cede.

Estagiária Palmira (oftalmologia), nomeada para “A mais sabichona”
A Palmira, coitadinha, é surda e quase ceguinha dos dois olhinhos. É muito dona do seu nariz e não sabendo e vendo quase nada, diz saber e ver quase tudo. É uma estudante convencida, que gosta de argumentar como se tivesse exércitos atrás de si ou como quem concede um especial favor a toda a gente! Tenho cá para mim, que a escola da vida a vai chumbar uns bons anos seguidos!

Veterinária Berta, nomeada para “A mais depressiva“
A doutora Berta tem muitas dores de cabeça periféricas. Ela trabalha de segunda a sexta, deprimida como um ramo de rosas que chega ao destinatário no dia seguinte. Ela costuma alugar o marido para fora e maltrata-o, como se fosse ele para ela, um mal maior que a peste! Por vezes faz birras tão bruscas, que desconfio que ela tem um pólo norte e um polo sul dentro da cabeça. Quando o marido precisa de ralhar com alguém, quem ralha é ela, porque ela diz que ralha melhor. Além do marido, eu também tenho medo dela.

Auxiliar Bárbara, nomeada para “A mais esdrúxula”
A dona Bárbara, loira na inteligência, gosta de passar atestados de burrice aos colegas para se sentir mais inteligente. Estratégias. Acha que tem amigos lá no hospital mas não é amiga de ninguém. Todos lhe falam na retaguarda. Ela também gosta de esconder a cabeça entre as folhas dos jornais quando é descoberta e quando o Benfica perde, desaparece das redes sociais. O seu hobby favorito é dissecar moscas à janela enquanto esmiúça a vida alheia. Tenho cá para mim, que o seu trágico destino deve ser explodir de raiva como as cólicas renais fazem aos rins lá no hospital!

Psicólogo Sales, nomeado para “O mais antissocial”
E por fim, o último nomeado sou eu (Luis Mateus).
O meu nome fictício é Sales. Alguns dizem que sou antissocial, meio louco, convencido, estranho e desbocado, e eu confirmo: é tudo verdade! Ando sempre rodeado de muitas fronteiras, como se estivesse entre bestas numa floresta, mas só recebo no meu gabinete quem me apetece. Gosto de cantigas de escárnio e maldizer, sobretudo as de maldizer e digo as verdades todas através da escrita, que não dá garantias nem compromete. Dizem que nasci tarde. Confirmo. E também dizem que por este andar, devo morrer cedo. Eu não sei se concordo, porque pessoas ruins duram mais anos.

Um pedido de desculpas aos muitos, que pela sua excessiva sanidade e pacatez, não conseguiram estar entre os nomeados.
Deixo-vos um conselho: a normalidade é um aborrecimento!
Sejam diferentes, exóticos e extravagantes!
E tu, (trabalhando ou não na CUF), achas que foste nomeado?
Quem é quem neste enigma?

Boa sorte a todos!



13ª carta à minha Mãe


lá fora chove
como se pingos de chuva chorassem por nós
como se o tempo viesse em minha defesa
e me trouxesse anjos e recados
rascunhos e projectos inovadores
que me afagam e embalam
enquanto beijo nos olhos a chuva
por uma nostálgica janela

como quem provoca quem quero esquecer
te peço ajuda
para sair desta dormência
e acordar
como a alvorada e o padeiro que se levantam cedo

o algoritmo da vida
tem-me baralhado todos os dias
e eu tenho deixado
como quem vive agarrado a medalhas de prata
como quem não sabe por onde abrir caminho
como quem se fecha num quarto escuro para chorar
inocente
como quando nasci

o problema minha riqueza
é que tenho muitas saudades tuas
como se tivesse o abraço sempre preparado
como se apertos no peito fossem rituais nocturnos

de coração arrancado
como se tiram os caroços das cerejas
sucos escorrem-me diariamente pelos dedos
são o sangue dos olhos transformado em lágrimas
são lágrimas de ferro fundido
muito resistentes a rupturas portanto
como tu e eu

da vida já perdi partes
mas as piores
foram contigo às costas
queria largar essa mochila
há anos que me pesa
há anos que tento abrir o céu à força com as mãos
que até os ossos me ficam a descoberto
se a carne e o ferro se gastam com o tempo
imagine-se a ausência

tenho andado
como quem só canta se não tiver plateia
numa espécie de gabinete de guerra interno
embrenhado num esquecimento desacomodado
como quem quer muito mas não quer de facto
esquecer-te
no entanto impotente
como se lavasse camisas no programa errado
e prostrado
como as palavras que detestam o silêncio
e as cortinas que ondulam à janela sem saber o que fazer

de olhos turvos de saudade
tenho acessos de uma quase raiva
como se a violência fosse uma coisa normal
oh senhores
parece que está tudo gasto menos tu
e é por isso
ao menos por um dia
que te queria esquecer
como um vestido que se tira pela cabeça
como quem acorda de um sono sem sonhos
como quem já nem a voz da sua mãe conhece

queria seguir em frente
como quem não vê o céu de sempre
como quem volta a sentir o cheiro da vida
queria deixar de me lembrar que te perdi
como quem nunca te conheceu
ao menos por um dia

ajuda-me com este circo
porque preciso de ser quem era
preciso de uma primavera só para mim
como todas as outras andorinhas
como quem desembrulha um nó cego
sem que sobre ele se possa algum dia
construir alguma coisa

que eu consiga renascer
e sorrir ao menos por um dia
como quem alcança a alta posição da martírio
portanto meu grande amor
meu amor eterno
de cabeças ainda de fora mas quase afogados
não façamos mais ondas

e por fim
devagarinho
lentamente
como um rio que empurra barcos sonolentos para o mar
te mando um décimo terceiro beijo
amo-te muito Mãe
até pró ano



A Purga


Talvez um dia tudo fique mais leve,
Quem sabe a minha sorte mude
Com uma purga que venha breve
Purgar-me por dentro e me ajude!

Adamastores que por mim passam:
Que a purga vos leve assim devagar,
Mas com um tal vigor que até façam
Nivelar montanhas e erguer o mar!

Ah, se o destino agora falasse
Que me daria o céu, o sol e a lua,
Qual purga que tão bem rimasse

Com essa virtude que é tão sua,
Como se a vida hoje começasse
Bem-nascida em qualquer rua.



A Última Tulipa


Outrora,
quando a nossa casa era uma ilha
onde ninguém ralhava,
quando éramos donos do mar
e o amor não doía,
a minha sombra estremecia, só de pronunciar o teu nome!
Mas isso era no tempo em que celebrávamos tudo!
No tempo em que uma caminhada domingueira, era uma viagem!
No tempo em que velávamos o sono um do outro!
Lembras-te, quando as despedidas eram à varanda e à janela?
Meu amor,
porque nos vestimos de negro até à alma?

De nós, nem vestígios nem esperança!

Sou hoje cão sem dono,
que não fede, não cheira, não nada;
com saudade de tudo e de coisa nenhuma;
um fazedor de poemas sem poesia;
dividido entre a luz e a bruma, o céu e o mar,
mas meu amor, doravante
não te consigo mais amar!
Estive tempo demais pela metade dividido,
em tantos pedaços quantos uma metade se pode dividir!
Prostrado, de joelhos,
como se estivesse longe dos meus agasalhos!
Perdemo-nos, não sei quando e onde,
uma e outra vez!
Já não dançamos, damos coices acrobáticos!
Já não sabemos o caminho para casa!
Na nossa rua do ‘para sempre’,
já não cabem as palavras de outrora, de antigamente!
Sabes? Aquelas ditas todos os dias...
Aquelas gritadas para cima dos telhados...
Estamos roucos de tanto vociferar
e vazios de tanto transbordar!
O nosso elo era gigante!
Como fomos perder uma coisa tão grande?!
Temos deitado alcatrão por cima de todas as coisas que florescem lá na nossa rua!
O destino foi largado ao vento, que fez o que a tempestade quis
e da tempestade brotaram tumultos, solavancos e choques em cadeia!
Quantas horas, quentes pela raiva, foram gastas?
Quantas pazes feitas fizemos?
Porque vendemos tudo a preço de nada?
Quantas reconciliações sem concórdia?
Quase todas, meu amor!
Já procurei fugir, mas não consegui.
Já ousei até me despedir, mas estive sempre teimoso.
Já tentei tantas coisas, que hoje já não estou mais aqui.

Será triste, sonhar-te sem poder tocar,
ouvir-te sem poder escutar,
e acima de tudo, amar-te sem querer amar!

Ninguém te quis mais do que eu.
Ninguém foi mais paciente e ninguém te amou mais do que eu!
Ninguém.
Amo-te, mas amar também é deixar ir.
No entanto, quero que saibas,
que entre as extremidades do que amei,
sempre te quis de verdade!
Os teus beijos não perderam sabor.
Nada em ti perdeu encanto!
A nossa estrelinha, a mais antiga do universo,
apagou-se como se houvesse um céu tão nublado,
que nos esquecemos que acima das nuvens, há crença e claridade!
Nada é claro e eterno,
nem um amor de verdade nem a dor de o perder!
Perder um amor verdadeiro requer uma certa dose de coragem,
como quem muda a vida de casa!
Para que possamos vencer meu amor,
tu e eu temos de perder!

De ti levo todas as quimeras, danças, recordações e coreografias,
como se fossem retratos em molduras intocáveis...
De ti meu amor, levo a lucidez do que é o Pulsar da Vida!
Desejo
que um dia ames como todos os dias te amei,
que não contenhas lágrimas na despedida, nem olhes espelhos sem saída!
Chorar liberta a alma e desatar nós da garganta… acalma!
Quando perdes alguém de vez, perdes para Deus;
Quando perdes um amor, podes ganhar um ombro defensor!
Pensa nisso!

Sê paciente,
não te deixes murchar e não corras a buscar horas.
Espera que a primavera amadureça e te dê uma flor
quando sobre ti voar uma borboleta que a mereça.
Não és fraca que não possas recomeçar, nem forte que não possas gemer!
Haverão dias, que lembranças te farão sorrir, outras chorar,
mas lembra-te: estarei aqui, sereno e pronto como um guardião!

Tulipas...
Já te dei algumas,
mas esta é a última que tenho no bolso.
E é também a última vez que te chamo ‘amor’,
ao mesmo tempo que bebo do destino um violino que escuto,
nesta melodia amarga que se vestiu de luto...

A última tulipa. Toma, é para ti.

Adeus.



Ressurreição dos mortos


Há quem nunca tente.
Outros vão tentando, sem nunca tentar verdadeiramente!
É fácil quebrar ou desistir!
Difícil é tentar, ser golpeado, sofrer e cair.
A dor enobrece e endurece a alma!
Muitos vivem no limbo, à espera que o seu manicómio abra falência,
disfarçados de gente persistente, de gente que nada contra a corrente!
Esses não vivem, sobrevivem vítimas da própria covardia.
São os que se rendem antes de serem condenados;
Os que empurram propósitos para a frente com suas barrigas moles;
São os que nunca viajam para dentro de si mesmos;
Os de alma pequena, os que dizem que nada vale a pena!
São personagens que vão morrendo aos poucos, acomodados,
como se não houvesse mais propósito, além de saciar a vontade seguinte!
A preguiça parece que envenenou a alma dos homens!
Há lá coisa mais bela que ser autor da própria história?
Não é difícil sonhar. O difícil é renascer e tentar, mas tentar dá trabalho!
Quem tenta, mesmo falhando, vive
e quem nunca falha ou quase tenta, já morreu.
Quanta da tua persistência são pés molhados?
O que tenta esta gente que não gosta de se molhar?
Eles não tentam ser, vivem de aparências!
Tornam-se fingidores porque só fingem e aparentam,
e tornam-nos frustrados porque parecer não é ser.

Eles seguem fracos repetindo frustrações!
Eu coleciono tentações, poesias e ressurreições!




Pedir remissão vezes sem conta


Deus é amor, clemência, compaixão,
É omnipresença que tudo vê e perdoa.
Ao cristão, fariseu e até à má pessoa,
A todos, ele dá a bênção e o perdão!

Mas pedir remissão vezes sem conta
E pecar como quem come tremoços
É como exigir ao tremoceiro caroços
Ou a Deus a desculpa sempre pronta!

Portanto, caro fiel, se te queres salvar,
Se queres pedir ao criador absolvição,
Começa por te assumir e confessar

Que és um pecador por vocação!
E quando souberes o que é pecar
É que pedes novamente perdão!




/ ano: 2023 /


Uma almofada limpa branca e honrada!


Dizem que sou pessimista insolente,
frio e quente estranhamente!
Dizem eles,
que tenho orifícios cerradpos,
cada vez menos comum,
menos amante,
menos gente,
quase um.

Não vislumbro calos nem velhas enxadas,
nem rugidos de peitos nem santas palavras,
antes lanças, esterco, alçapões e armadilhas
vindos de gravatas e bigodes pavões
ou decotes de galinhas
que nunca chegarão a mulheres!
Comem tudo e cospem e berram
e rezam sempre ao mesmo Deus
que já não lhes recebe carta nenhuma!
Enxergo gemidos, línguas bifurcadas,
fisgas altruístas e pedras arremessadas
como a d’alguns poetas
que pagam pra serem lambidos e percebidos
porque as suas façanhas são afinal amendoins
que o povo iletrado come alegremente
com os dentes do siso engolidos à décadas

Já ninguém gosta da lua,
da solitude do algodão e da chuva
ou de uma almofada limpa branca e honrada!




Uma gaveta maltratada

Costumávamos ser polivalentes como um albatroz é lá no mar,
donos de narinas formidáveis, que até sentiam o sal a sair da água!
Um cravo vermelho e uma orquídea encarnada,
como poderia a nossa glória não cheirar bem?

De olhos inchados maiores que as cabeças,
duas flores lacrimejam moribundas numa gaveta maltratada!
Um mar de cinzas ali guardado!
Memórias salgadas de um borralho escaldado vezes sem conta!
Na catacumba da gaveta,
um tiro no pé,
um suicídio escolhido.

Dizem que faz frio antes da partida,
que se ouvem sarcasmos no riso de hienas!
Já não ouço hienas ou lobos quando estou com frio,
mas o frio impede-me de negociar qualquer troca de cadeiras.

Perdemo-nos!
Talvez mais eu do que tu!
Eu, porque pus uma história em suspenso
e tu, porque podias ter esperado por ela!
Sinto-me amaldiçoado como um lobisomem que procura a tua carne,
mas que tem de fugir das balas de prata!
Ainda nos seguro como um noviço segura uma arma, sabes?
O meu lado da história diz que errei, e o teu?
Queria ver o fim contigo!
Nunca mais usar “rendição” como palavra do nosso léxico!
Seres a mais amada da nossa espécie!
Quem sabe um dia nos possamos perdoar, amadurecer e juntar,
talvez como irmãos nascidos no mesmo dia
sob a forma de um amor menos mordido pelas urtigas.




Pedido de casamento

Ó Cristo, vêm cá ver isto:
Um beijo roubado
e um pedido de casamento
meio doce, meio salgado,
sem dó nem fundamento,
sem anel ou noivado,
como um beijo ao vento
apaixonado!
Uma pitada de violento
e duas ou três de imprevisto!
Não achas, ó Cristo?





/ ano: 2022 /


Carta a Sophia...

Olá meu amor, como estás?
Eu cá vou indo, à procura de uma cadeira melhor pra suportar as esperas da vida,
enquanto invoco a minha missão cá na terra: ser e fazer quem amo, feliz!
Nos intervalos, como sabes, tenho bordado tulipas e seixos em fragmentos de prosa, como estas letras que te escrevo...
Senta-te amor, porque a leitura vai ser longa.
Porque me vergo à tua altura pelo tamanho que te reconheço, quero dizer algumas palavras ao Cravo Vermelho mais lindo que conheci!
Dizer-te assim, sem valsas introdutórias, brandy ou velas de cheiro, sem nada além da única temática: nós! Que és e sempre serás a mulher da minha vida!

Uma história de amor...
Todas têm um primeiro dia, um primeiro beijo, amor, céus estrelados, querelas ou mesmo crispações do tamanho de um urso pardo zangado!
Enfim, páginas de todas as cores...

O início…
Quando te viu, o meu léxico, de corpo avantajado, não te conseguia descrever...
Como renovar uma gramática com adjetivos insuficientes?
Eras dona de um padrão de beleza algures entre o improvável e o perfeito!
As tuas conformidades acima dos padrões eram evidentes!
Impressionante a fluidez do entrosamento sem um parágrafo de monotonia sequer!
A tua prosa, altamente literária, casava tão bem com a minha!
Fiquei rapidamente preso em arame muito farpado, o teu!
Exibias um intelecto viajado, olhos claros e sutis, silenciosos, arrogantes e de maquilhagem discreta, porque dela não precisavas.
Eu era atrevido, como quem ostenta um bigode de pontas levantadas, e tu, sempre com as vestimentas corretas em pernas irrepreensíveis, atrevida te apresentavas!
Via-se que eras treinada na arte da sedução e combates amorosos.
Uma flor que sabia cortejar quando era cheirada!
Esperava-te desde os tempos em que te sonhava no útero da minha mãe.
E foi então que os astros conversaram e conspiraram a meu favor.
Como em qualquer primeiro encontro, avaliei o livro apenas pela capa!
E que bela capa o livro tinha!
Amei o teu cabelo de lã de cordeiro, perfume de magnólia que inflamava cordas de seda no volume.
Olhos grandes, cavados prodigiosamente, com uma mímica pestanejante que ofuscava! Cosméticos não usavas, talvez por teres sido ungida por Deus à nascença.
Maçãs do teu rosto, um acervo de massa e veludo que pedia carícias ao meu polegar.
Um sorriso de porcelana, ditador, místico e patrão.
Dentes cândidos compunham a tua imagem de marca: um sorriso largo.
Também portento, na carne e nos sapatos serenos como os detalhes.
Um estoiro para os sentidos!
Como é que eu, que nunca fui de deixar que me apontem direções, fiquei ao mesmo tempo atordoado e inquieto como um touro imaturo?
Ah, se tivesse que te desenhar a lápis de carvão, serias um louva-a-deus em honra ao teu corpo alongado e belo como o do animal.
Como te via:
Uma fenda aparada à espera de ser atestada, um punhal;
Uma sorriso branco à espera de ser vestido, uma língua;
Um tronco desprovido à espera de ser lanhado, colisões!
Davas-me sede!
Tinha de te provar como se provam os vinhos exorbitantes.
Ah, aquele vinho que era tão superlativo como tu!
O vinho que levei no dia em que as nossas intimidades se conheceram!
Desejava-te como o tubarão e o vampiro desejam sangue!
Mas que calvário dos infernos era este?
Entre cada pestanejar, tinha cinco pensamentos pecaminosos!
Era estranho.
Tu que tinhas uma tal graça, um tal intelecto, um tal bocadinho de tudo, não te julgava um cisne assim tão assassino, tão perfeito, tão apurado e tão saboroso!
Sobre todas as superfícies, lábios conjugavam e sugavam verbos lentos e suculentos.
Línguas soltavam confissões homólogas entre palavrões e palavrinhas de amor...
Dedos precipitavam hematomas enquanto dentes serravam outros dentes e ventres lançavam fogo-de-artifício de meia em meia hora! Parecia ano novo!
Um entrosamento digno de vitrines e postais!
A paixão inicial foi isto: querer fazer amor contigo até que os meus ossos fizessem barulho, até que a noite, em frangalhos, implorasse ao dia pra começar o seu turno!

Cimento era então despejado no nosso começo...
As manhãs nasciam todas num céu satisfeito e promissor...
Percebo que além de formiga-rainha, também és obreira, pelas mãos rasgadas por horas feitas além das que te cabiam, assim como eu.
Perguntei-me: “O que te move ao final do dia? Um homem virtuoso ou sapatos extravagantes?”
A tua alma respondeu: “o coração, as pessoas e um lar”. Encantado!
Eras diferente das outras cores, de brilho sereno e acima de qualquer círculo cromático que a minha retina já degustou!
Eras amiga do próximo, genuína na essência, alegre e parvalhona, como eu!
Tanto do que pedi a Deus! Impressionante a minha sorte!
Tinha à frente artesanato sóbrio e refinado!
“Em que oficinas se fazem cerâmicas destas?” - perguntava aos meus botões...
Oh heroína, mas como deixá-la?!
Fiquei apaixonado!
Sentia-me como Alexandre o Grande, bêbado, mas capaz de conquistar o mundo!
Desejava-te, como as lagartixas estacionadas em varandas soalheiras desejam o sol.
Perto um do outro o suficiente, era não haver um átomo sequer entre nós!
Só apetecia ficar ali juntinhos como grãos em silos, lembras-te?
Um poema de amor começava então a ganhar forma.
Foi assim que me apaixonei...
Picadas de abelha, quem sabe mais tarde, favos de mel.

Paixão e amor. Que diferenças?
A paixão é despique, pressa e cegueira.
Uma moeda de dez centavos atirada ao ar, à espera de saber o desfecho do fascínio.
É apetecer endereçar um grito de felicidade a todas as entidades do universo!
A paixão é como um objeto pra chutar e ver onde o pontapé nos leva. Já o amor vem de um pontapé certeiro!
A paixão é uma composição que duas crianças escrevem desenfreadamente enquanto o amor é poesia proferida com letras imperfeitas.
O amor é perdulário, sereno e uma bengala. Uma pepita de ouro num cofre, protegida por um castelo e dois soldados.
Amor é uma oferta que surge da paixão ou amizade, de um ponto apagado ou da chama acesa.
A paixão acende, o amor vai pondo combustível.
O amor pede um lar são e atlético, e isso vem da habilidade de correr maratonas, não curtas distâncias!
Amor é sol que nunca morre, é passear pela vida, como o sol caminha no horizonte enquanto zela pela lua, antes de se pôr.
Quando uma paixão lança sementes longe o suficiente lá para cima, para o cume das coisas com futuro, o amor acontece, puro e branco como gelo do pólo norte.
Ao invés...
Se a paixão é apenas fogo e repositório de luxúria, a terra onde se queimou o mato não serve mais para semeadura.
Resumidamente, a paixão é uma solução de benzeno à espera de ser incendiada por amor ou corvos a depenarem-se.
Uma incógnita portanto.
“Seremos flores pra envelhecer no mesmo vaso?” - Perguntei-me.
A porta para o amanhã é uma porta incerta e o transpor da soleira um bosque por explorar e por isso arrisquei, pedindo-te exclusividade.
Foi selada por um anel. Um metal raro assim como tu, que dizia ‘amo-te’ em todas as línguas!
Não aceitaste menos e não precisaste de mais! Já o esperavas.
Era o início de uma nova era.
Um passo a mais na nossa história, num enredo cada vez mais denso.
A exclusividade deu-me poder e confiança!
Senti-me vaidoso e sem medos, como formigas que exibem o seu poderio militar ao mundo.
Uma esfinge em nosso nome assinalou então uma possibilidade: metamorfose.
Uma espécie de fusão de almas a dar os primeiros passos.
Dias inesquecíveis não foram amor?
Que paixão acentuada tivemos!
Foi cegueira, como quem vê aderência no azeite ou esperança num alçapão;
Febre e intensidade, como um tornado num galinheiro apertado;
Um conto de fadas, algo como um paraíso e duas pessoas com medo que o céu fuja;
Resumindo, a paixão foi tonta e sem medida!
Mais tarde, foi amor...
E o amor, o que significa?
É zelo, como quem mapeia um caminho com um colete salva-vidas;
É respeito, porque vergões nos braços são consequências da coragem;
É admiração, porque quando ela se perde, perde-se tudo;
É perdão, tão somente o substantivo mais importante do verbo amar;
É comunhão, como quem partilha o alívio de não chorar sozinho,
E é intemporalidade, porque amor verdadeiro não é transitório, é intemporal...
Parecíamos predestinados, protegidos pelo universo que uniu forças para nos juntar e quem sabe até casar.
O barco parecia ser forte. O porto, seguro. O mar, agitado à noite e calmo nas horas restantes.
O céu parecia não ter reticências!
As ondas, pelo caminho, falavam umas com as outras e diziam que a noiva ia linda, o seu par, airoso e que no casamento serviriam favas contadas...
Fui ao sexto planeta a contar do sol roubar um dos anéis de Saturno para depois fazer um pedido daqueles ajoelhados, na cidade das luzes, da Torre Eiffel e do amor.
Dia do enlace. Um céu perfeito como tu.
Dia solarengo em que o mundo explodiu em cores quando te vi!
Estavas um degrau acima de perfeita no vestido, tão bela e suntuosa como o teu caráter altivo.
Cinquenta grilos romperam orgulhosos da escuridão, e à nossa volta acenderam cinquenta velas.
A lua e o fogo-de-artifício cruzaram o céu devagarinho, abençoando um casal recém-nascido.
E o vento… o vento sorriu à lua que escapou, pé ante pé, para não perturbar tal união.
Uma nova estrela cor de ameixa nasceu no céu em nossa homenagem...

União sem tropeços não se pode chamar de casamento...
Quem não os tem que atire a primeira pedra!
Quem nunca foi picado pelo mosquito rotineiro, que tenta minar todos os amores perfeitos?
A nossa cozinha também já foi desordem de frascos, colheres de pau e loiça por lavar, mas o que importa é aprender com os percalços e seguir em frente.
É assim que cozinham sábios em cozinhas onde se cozinha com amor!
Nunca tivemos problemas conjugais, daqueles fatais e com mais de nove andares de altura, no entanto ambos tivemos falhas.
Perdoa-me os erros, as vezes em que fui apenas suficiente e a falta de sabedoria nas horas mais importantes, assim como eu te perdoo as faltas.
As vezes em que te disse adeus, eu quis dizer não vás.
Dizer-te que por vezes não soube ler as tuas entrelinhas nem as minhas.
Perdão por isso.
Reconheço: tenho cinco vezes o tamanho do sol em melhorias para fazer...
Que erros e batotas sejam degraus de aprendizagem e depois… depois que sejam colocados na caixa dos assuntos resolvidos e arrumados.
Adiante...

Quando penso em nós meu amor...
Uma planície demorada, pena perpétua;
Uma planta e um feto, cuidar;
Café em cima do fogão, uma confeitaria;
E um ninho de serapilheira, elementar!
A alcova do meu peito, o teu quarto favorito;
O teu cabelo, o recreio dos meus dedos;
A cama, um mar de conchas todas as noites;
Uma tela tua, pintura que supera Renoir;
Tu, um céu divino. Eu, quem a ele se curva...
Se eu não fosse humano, seria talvez uma verdura.
Seria uma rúcula de sabor intenso, picante e amargo como as horas em que não estás e tu se calhar uma alcaparra!
Tão bem que uma alcaparra te descreve: talos espinhosos e afrodisíacos, flores brancas como as coisa puras e ainda por cima dizem que estimula o apetite! Tão tu!

Se não te pudesse ter...
Seria como alguém traçar o meu peito com uma espada, como quem encerra todos os livros que li e a minha habilidade de ler até...
Como descrever um momento destes?
Talvez ficasse com o coração despedaçado e partes dele morreriam, enquanto outras iam tentando o suicídio certamente...
Talvez a minha respiração ficasse presa a uma sentença de morte por anos.
Talvez sentisse a carne a desprender-se dos ossos enquanto definhava aos poucos.
Se calhar caia mesmo em desgraça como um sol que se põe em descrença pela última vez.
Talvez me nascessem garras, farpas, coisas que ferem e talvez por isso não quisesse ser adubo no jardim de mais ninguém!
Talvez o rosto se acinzentasse ou embranquecesse.
Talvez ficasse envolto numa espécie de ecologia facial morta. Sem cor, credo, fé ou vida, como os fogos extintos.
Talvez mirrasse na generalidade.
Amar também é deixar ir...
E deixar ir pode ser amar como quando não fazer nada é um tipo de ação.

O que desejo...
Quero perfilhar todos os teus voos e quedas, como dizem os padres que se deve fazer na saúde e na doença.
Quero cozinhados eternos feitos no nosso fogão barrigudo.
Ser o teu companheiro de galhofa enquanto se bebe um vinho daqueles bons e que batem nas cabeças.
Que sejamos sempre poesia antes e depois do meio-dia e diabrura depois da meia-noite.
Que cada novo dia contigo, seja um tijolo comprado.
Quantos serão necessários para construir uma casa?
Uma casa, serão tijolos correspondentes ao tamanho idealizado. Depois é haver amor e poesia lá dentro.
Um lar precisa de tijolos infinitos. Eternos, como o zelo que um lar pede.
Um lar requer manutenção, acrescentos, alpendres e cuidados novos conforme os velhos se constipam, porque amor não é dizer, é agradecer, retribuindo...
Que seja inquebrável o vínculo do equilíbrio místico entre as nossas polaridades...
Que sempre exista afinidade entre o dividendo e o divisor. O quociente somos nós, e o resto do tempo e do mundo será nosso por consequência.
E como nisto do amor, não há garantias nem matemática, arrisco-me a dizer que o nosso amor é para sempre, se sempre se vai aprendendo alguma coisa...
Aprender. Do que estarei a falar?
Meter agulhas e tesouras na caixa da costura, que é onde essas coisas que ferem devem estar;
Talvez pó e nódoas sejam mais fáceis de varrer e quem sabe já não existam tapetes que os acolham;
Talvez frutas cítricas, bebidas do mesmo copo, sejam suficientemente doces para carregar penas leves;
Birras deverão perder a habilidade de subir degraus dois a dois, e talvez sejam só isso: cismas fugazes!
Talvez verdades sejam milagres comuns num dia-a-dia que ri das mentiras dadas numa idade antiga;
Talvez andar à chuva não seja grave, talvez haja só gargalhadas e pés molhados;
Rios, assim como estradas, deverão ser de sentido único e ter uma única margem, aquela onde está a fortaleza e o farol;
Oxalá dinheiros não consigam curar amores doentes nem comprar céus estrelados;
Que não hajam desertores só porque as horas estão gastas. Gastem-nas em diálogo;
Enfim, que não se perca tempo em futilidades porque o tempo é finito e que se perceba que o truque da vida é acreditar, crescer e amar.

Como nos vejo daqui por vinte anos:
Quero ter educado bem a minha descendência;
Poder dizer que por eles e por ti, lati e rosnei;
Que fui colete salva-vidas, ombro, calor, luz e legado transmitido com orgulho;
Que usei sapatos a precisar de serem deitados fora, para que outros tivessem oito pares;
Quero que tenhamos feito pelo menos metade da nossa lista das ‘coisas a fazer antes da última taça de vinho’;
Quero ter sido admirado pela essência, coração e cabeça que tive, não por futilidades;
Ter a noção que fui mais imperfeito do que uma bolota, mas que tentei ser o melhor de mim, enquanto amei, perdoei, ajudei e construí;
Quero poder dizer que nada além de ti, teve o dom de nos abalar;
Que fui cimento que une. Que por ti nunca hesitei molhar pés, mãos, o corpo todo;
Que nessa altura possamos dizer que soubemos lidar com uma das coisas mais frágeis que conheço: o casamento. E que o conto de fadas mais presunçoso se roa de inveja da nossa
história e a ela se curve;
Quero que possas dizer que tenho sido um bom companheiro, pai, avô e restantes graus de parentesco;
Quero, com um andar de galo e peito saído, dizer ao mundo que não podíamos ter sido mais felizes!
Enfim, adorava um dia assistir à longa-metragem da minha existência e ter gostado de quem fui.
E depois, um dia, quando conhecer o criador, que ele me diga, que apesar de muito ter errado, que fiz um bom trabalho cá na terra...

Sabias que Cravos Vermelhos significam respeito, amor e admiração?
É por isso que és e sempre serás o meu Cravo Vermelho.
Que sempre sorrias, quando sacudires o pó a esta carta amor...
Que acredites na possibilidade de alcançar o monte Olimpo, o cume da fortuna e das histórias que correram bem...
Estou agradecido por saber o que é amar e ser amado.
Grato por ter sido escolhido para erguer uma civilização à tua beira e poder dizer que vivi plenamente e amei verdadeiramente.
Tão certo como uma folha de alface amar a chuva, te digo: amo-te e sempre te amarei.
Que tenhamos uma boa viagem.
Mil beijos meu amor.




Tela inacabada

Que noite! Que noite tão bela!
Duas almas que se fundem e a saudade que se esfarela…
Um pacto com a força de mil universos!

A tela inquieta e o pincel insatisfeito,
Sendo partes do mesmo desenho,
São carne, peito do mesmo peito,
Porque mesmo sem te ver, eu te tenho
E tu me tens, sem me ter no teu leito!

Nada nos belisca meu amor,
Nem sequer a ausência,
Porque em paz e sem dor
Nos basta a mera existência!

Precisamos de tão pouco!
Talvez um quase nada de condimento
Pra temperar amor com um tal vento,
Uma tal brisa, que só com o olhar
Sabe o que é ser amado e amar!

Um dia amor, havemos de ser invencíveis,
Nem que seja debaixo da terra!
E se assim tiver que ser,
Em rotação universal, rodaremos para sempre
Virados para Deus, em agradecimento…




/ ano: 2021 /


Era uma vez


Uma fábula que tinha
Um pote de mel e muito sal,
Um ninho com uma andorinha,
Uma quimera e um pardal.

Que paixão tão bela, a dos passarinhos
Como se coisas maiores fossem prováveis!
Que chilrear tão doce, o dos papelinhos
Que levam recados urgentes e formidáveis.

Ele tinha boas sementes de marido
E ela o poder da carochinha à janela!
Era perfeito o que astros tinham unido:
Um Príncipe grego e uma Cinderela!

Tão bem que se dão os seus santinhos
Sob fumos quentes, estrelas e o luar!
Tanto se pediram a Deus, os passarinhos,
E agora este não os quer sacramentar!

Era uma terra fértil, quente e molhada,
Coberta de sorrisos, toros de lenha e fé,
Que ardeu alegre até não ficar nada
Além de chávenas vazias de tudo e café!

Era só um trago, um salto na fogueira,
Um enigma inocente, apenas mais um,
Como quem não quer levantar poeira
Ou chegar prometido a lado algum!

Se não sou teu ou tu és minha,
É porque o destino tinha por missão
Costurar embriagado com forte linha
Uma nódoa de rum naquela paixão!




Sol de Março


Ah! O teu porte, o teu olhar...
Poção potente, suave aguardente,
Videira brava de um antigo pomar
Onde estivemos por acidente
Uma manhã inteira a vindimar!

O céu caiu ali de repente
E o pomar viu tremer o chão,
Que sob um sol muito quente,
Aguça uma cálida atração
Que se enleva descontente!

Este sol de Março, incendeia!
Luxúria a ferro e fogo e uma teia
Prendem-me a não sei o quê...
Talvez porque ela encandeia:
A paixão cega que não se vê!




/ ano: 2020 /


Borboleta iludida


Os teus olhos escondem diamantes
Nas retinas com olhares mortais
Que arremessam flechas ofuscantes
Como se fossem notas musicais!

A lua cheia, num mar de euforia
E eufórica rotação constante
Faz uma escura noite ser dia
E o amoriscado, coisa ofegante.

O coração, de cego, então insiste
No timbre perfeito, que não existe,
Como se o amor lhe desse a mão.

Mas tal como a borboleta iludida,
Que tão curto é seu ciclo de vida
Como o fado duma breve paixão!




Amor é antítese


Amo-te porque não sei bem porquê!
Talvez este não sei das quantas amor
Nos veja como quem não sei como vê
Em nós, um vaso a casar c’uma flor!

Amo-te sei lá de que maneira e como,
Se as noites em que te quero amante
São dias em que não sei se nos tomo
Por coisa sólida ou por alarmante!

Amo-te assim e não sei por que raio
Te quero desta invulgar maneira,
Em que não sei se do amor ensaio

O hastear d'alguma bandeira!
Amor é antítese. O amor é assim:
Ora diz que não! Ora diz que sim!




Amor, desalento e solidão


Queria, quem já não me quer seu,
Que por sua vez não quer ninguém
E quem me quer eu rejeitei também
Por não ser de quem não é meu!

Quantas portas ao amor não dei?
De o querer, quantas se fecharam?
Quantas solas e aparas se gastaram?
Quantas ruas e poemas atravessei?

Mas que desalento chato e redondo,
Que se o tento cantar a um canto,
Ele não os tem e eu lá vou pondo

Nós engasgados num calado pranto!
Não podendo ao amor cantar então,
Vou indo e dando, espaço à solidão.




O poeta é que sabe!


Ele é dono do que num poema cabe:
Belicosas metáforas ou não, ou então
Atalhos, fina ortografia ou alto calão!
O poeta é dono! O poeta é que sabe!

Enquanto um poeta tem de a sentir,
Um tolo tem de a perceber e explicar!
Poesia é como o rio, a chuva e o mar,
Há que molhar pés para depois sorrir!

Tanta tola criatura que uma razão dá
À poesia que lê, e diz que ela requer
Um preceito, que por vezes não há!

Enquanto versos o poeta compuser,
Ilustre e tola gente nunca entenderá
Que poesia, é o que o poeta quiser!




Tenebrosos segredos


São noites cálidas, escolhidas a dedo
Em que a lua curiosa, depois floresce,
Porque enxerga o tenebroso segredo
Nosso, e que o mundo desconhece!

Somos tal avidez e vontade cobiçada,
Como culpados que imploram perdões,
Enquanto carne fraca é entrelaçada,
Comungando sigilo e firmes ereções!

Ó tempo, reduz à noite a velocidade,
Pra que entre o pôr e nascer do sol,
Todas as ganas e sedes da saudade,

Sejam acolhidas por baixo do lençol.
Ó tempo, sê nosso amigo e amante
Até c'o dia brote e luz se levante!




Casas comigo?


És um oceano salgado e proibido;
Um cabo bojador de contradições;
Um grito vão, um choro reprimido,
Que me leva a um mar de emoções!

Se bravura fosse condição minha
E dela não ficasse sempre aquém,
Dar-te-ia o mundo numa caixinha,
O céu, o sol, a lua e mais além.

“Casas comigo?” era o que eu então
Diria, pra que percebesses que tu
És a fonte da minha inspiração!

E deste modo encabulado e cru,
Eis-me aqui entre caneta e papel
A oferecer-te um improvável anel.




Tertúlias amigadas


É sexta-feira! Dia de múltiplos debates!
É dia do coito solteiro e da mal casada,
Dos arfares gemidos e dos chocolates,
Da transa colorida e do sexo camarada!

Carrego em mim esta amizade cravada,
Que reparte comigo um apreço colorido
E no entanto, não queremos mais nada
Que vá além do que até agora tem sido.

Cacete e limões assim, quem os tem?
Tertúlias exuberantes, quem as dá?
À meia dúzia e ligeira, quem se vem?
Peitos ilustres lusitanos, onde os há?




O primeiro amor


Antes de tudo e todos, vem o primeiro
Encanto, beijo, paixão, ou amor talvez,
Uma flor que se dá ou não por inteiro
Ou o primeiro amor ou a primeira vez.

Pousa a borboleta na flor de um jeito,
Que no mel de seu ventre faz encosto,
Como o tolo coração, que fora do peito
Bate, antes de lhe bater um desgosto.

O primeiro beijo é tépido e desajeitado,
A prima paixão, tonta e sem medida
E a primeira vez é um céu estrelado!

Nada é eterno! Tudo é início e partida.
E o primeiro amor dura só um bocado
Até vir o primeiro desgosto da vida.




Profetas Papaloni


Certas tolas manadas de burlados credores
Carregam profetas ilusionistas em andores
Que amestram uma tal curvada humanidade
Num certo pasto d’uma reles fraternidade!

Dizem cuidar d’um tal rebanho espremido,
Da ovelha que lá foi e não devia ter ido,
Como a que não sabe por onde tem andado:
Se submissa, a pecar ou a roçar o pecado.

Papaloni é ser um tal pastor engenheiro
De questionável fé e duvidosa salvação,
Que através de um tal medo aduaneiro,

Cobra ao mundo uma certa contribuição,
Porque uns dão um desatento dinheiro
A uma irmandade atenta à desatenção.




Amo-te assim!


Amo-te assim, como o fogo ama arder
E arremessar calor e luz do seu ninho;
Quero assim como ele, amar-te e morrer
Contigo e assim arder devagarinho.

Amo-te assim meu amor, e lá mais adiante
Quando formos pó, poeira e coisa nenhuma,
Debaixo da terra, serei teu amigo e amante,
Serei teu mundo, até que ele nos consuma.

Amo-te assim, tão-só e simplesmente,
Que tão certo é Deus ser fé e piedade
Como a minha boca que não te mente

Ou estrelas e astros terem gravidade!
Perca eu a voz, o chão e tu e de repente,
Se este soneto não é, todo ele verdade.




O céu, o inferno e uma história


Antigamente
Éramos unha e carne;
Bebíamos tudo do mesmo copo,
Suores, lágrimas e um afável vinho;
Eras a totalidade de todas as coisas,
Eu era o teu universo
E todas as gravidades
Nos puxavam à nossa cama;
Palavras eram plumas que voavam,
Quando não se estavam a beijar;
Éramos provação e teoremas
E tu lias os meus poemas
Que eram todos para ti;
Rezávamos a Deus, que nos deu
O infinito, um lar e asas, e assim
Íamos em parelha à mercearia
Flutuando como passarinhos;
Era no tempo
Em que Deus respondia a orações
E prometia o céu e uma história.

Anos escarpados depois...
Somos garras que ferem carne;
Cada um tem o seu copo
Por onde bebe a retaliação do outro;
A totalidade de tudo o que éramos,
Esfumou-se no universo
E todas as gravidades
Nos afastam dos nossos centros;
Palavras são agora
De arremesso ou caladas;
Desaprendemos o perdão,
A paciência, a cumplicidade e a beijar;
Somos pétalas caídas de uma flor
De um poema que cheira a bafio;
Já não há mercearias nem passarinhos,
Só corvos, a depenarem-se uns aos outros,
Como nós.
Ainda rezamos, mas em vão!
Deus desistiu, como nós, de ambos.




Mentir o amor

A mentira severa que dura
Engana a boca que a profere!
É lobo sem lei nem bravura!
É cordeiro em pele de engodo
Que a todos dor confere.
Vai cavando a sua sepultura
E conspurcando de mágoa,
O algodão que tinha no princípio.
A língua ensanguentada
É limpa depois com tintura,
Pra desinfetar culpas e aflição!
E nas entrelinhas do seu errar,
Vai pedindo ao amor,
Perdão!

Mentir, Quem não usou já dessa pomada?
O problema da mentira
É a sua incontinência!
Quando já nada a segura!
Quando ela vira gente
E mente, mente, mente!




Penitência e mudez


Tenho andado esmaecido, às voltas e voltas
Como quem deita fora circunferências perfeitas
E de tanto girar, embranquecido me tornei.
Se não te encontrares, procura-me,
Se o acaso deixar
E se quiseres.

Dar-te-ei
Sangue e fogo,
A veias frias que tenhas cansadas;
O céu e asas,
A penas que tenhas inacabadas;
Rios e mares de noites estreladas,
E todas as estrelas que vires,
Serão tuas,
Se quiseres.

Apressa-te!
Tenho só os anos que me faltam viver.
Os outros,
Foram apenas preparo para te alcançar.
Enfim,
Nos resquícios dos meus sonhos,
Como ainda dormes, afago-te o sono
Enquanto, da seiva que me resta,
Vou banindo folhas débeis do outono
E até lá, serei penitência e mudez
E talvez,
Os restantes poemas de amor
Sejam todos para ti,
Se quiseres.




Namoradeiras a valer


Abri a namoradeiras passadas,
Janelas de candura e ousadia,
Mas as vigentes namoradas
Melhor seduzem a poesia!

Tenho enredos num armário
Embalsamados e esquecidos
De tais esculturas num diário
De reais versos e vividos!

Da minha herética janela,
Tenho de ser cautela!

Não vá quem não deve, perceber,
Que o pasto dado, que desminto,
É de quem, do que foi a valer,
Está constantemente faminto.




Poetizando


A chuva chora,
O vento assobia
À noite e à hora
Que um luar sorria
Ao poeta que namora
Uma fingida poesia.
Porém,
Se o negro acontece
E a claridade não vem,
A tinta implode, esmorece
E o poeta também!
Ou então,
Ele não acompanha
O que o pensar debita,
E o poeta estranha
Tão generosa escrita!

Ó poeta,
Bebe, fuma e come
Desamores e dilemas,
Cafeína, cigarros e poemas,
Senão morres à fome!




Sete plantas do meu canteiro


Quem não ama o verbo plantar
E não vê plantas a poder amar,
É porque é louco ou nunca amou!
Amar plantas não é coisa de doidos
E doido é coisa que eu não sou!

A todas dei nome.

(... Caetana...)
Era perfeita! Em bruto, um diamante!
Mil jurados lhe bateram palmas de pé!
Só que o problema do “para sempre”
É ser coisa, que nunca o é.

(... Surya ...)
Olha-me, como se, em câmara lenta,
Pudesse com tal dócil e forte vontade
Dizer ao tempo: “aguenta, aguenta!”
Para um dia sermos unos, eternidade!

(... Laura ...)
Não há espigões, nós ou embaraços
Que mais amei e alguns lhe dei,
Porque outrora dos meus braços,
Foste errónea planta que plantei.

(... Débora ...)
De talo estranho e folhas doentes,
Busca-me chorosa, de hora a hora,
Como quem perde coisas frequentes
E depois de ser ralhada, chora!

(... Pilar ...)
Doce governanta a tempo inteiro,
Do cuidar e cantarolar certeiro
E talvez pela sua posição
Namoro-a um dia sim, e três não!

(... Renata ...)
De fraco porte, altiva e risonha,
Com um olhar seleto a vir de cima,
Como se não houvesse melhor rima
Que a minha poesia componha!

(... Leonor ...)
Verte um tal odor no meu canteiro,
Como se tudo fosse nada e ela veludo
Que supera todas as plantas no cheiro,
Querer, saber, beleza e talvez em tudo!

Rego-as amiúde, uma a uma,
Com o amor que pude e tenho,
Porque me dou a todas e a nenhuma
Dou o meu coração frio e estranho!




Sophia, my dear?

How to silence my sea,
Cause it's anxious, not blue?
"Sophia, look at me:
I want to kiss you!"
Because I fell in love
For what I'm going to steal,
The kiss I didn't give.
Ah, but I will!




Amor Intemporal


Amor verdadeiro é intemporal.
É perdão, zelo e admiração!
É juntos, adoçar quilos de sal,
Porque a vida não é doce.

É o “para sempre”
Ser uma tela apenas
De histórias pintadas e plenas
De comunhão e liberdade pura
Que não se esquece, perdura.

Se árvores tiverem raízes,
De tal maneira entrelaçadas,
Que não hajam cicatrizes
De ventanias sopradas;
Se sorrisos conseguirem falar,
Se olhares puderem ler
Como o cego vê sem olhar
Sem uma palavra dizer...
Ele, o amor verdadeiro,
Tê-lo-ás encontrado!
Impossível esquecer!

Conseguir apagar tais pinturas
Era esquecer o verbo amar:
Gestos únicos, sorrisos, ternuras,
Abraços que fizeram acalmar,
Preocupações genuínas e puras,
Uniões de corpos difíceis de largar
Em telas que foram só para ti!
Não é possível, nunca vi!

Não se esquece o amor intemporal.
Aprendes sem ele, a estar só.
Podes até sentir poesia conjugal
Quem sabe até dar outro nó...
Mas aquele raro vinho,
O que bebes uma vez na vida,
Ficará, quer queiras ou não,
Na melhor prateleira do coração.

Amor verdadeiro é imune ao tempo.
Intemporal por isso...




Naveguei demais


Sei de uma pessoa
E essa pessoa sou eu,
Que em mares de lágrimas, vezes demais se perdeu.
Foram demais os desembarcadouros e cais
Onde pouco me dei e amei
E nos quais
Morri vezes demais!
E antes que morra de vez
A matar a sede em água salgada,
Queria um mar de rosas, não de estupidez!

Eu sou o mar, marujo de vocação e sem medos tais,
Que embarquei em começos e finais
Demais...
Cheirei maresias, mágoas e horas incertas,
Estive sempre aos meios-dias em praias opostas e múltiplas costas,
Sempre vazias...
Vacilei demais, remei demais, subtraí-me.
Fui, da minha conta, de menos e demais.
Naveguei muito além dela...
Perdoei tempestades e temporais,
Ignorei faróis, piratas, intuições e punhais,
Sempre demais...
Naveguei mares, rios, riachos e até lagunas.
Algumas foram lições, outras alunas
Demais...
Porque o mar não têm terra, só imensidão e gaivotas no ar,
Porque o rio lá vai como a lua, devagar
E o mar...
O mar é revolto, tem um cabo bojador e frio
E margens do rio
São fáceis de ancorar...

Acreditei
Que não havia peso no verbo acreditar
E que podia haver terra no mar!
Deve ser esta a minha sina,
Carregar coisas pesadas e lamber águas salgadas...
Tantas gotas no oceano e nenhuma é doce!
Ó mar salgado, porque não vieste adoçado?
Só que água doce
Não é o mar que a traz...

Em que luares voam passarinhos?
Em que rios estão ninhos a crescer?
Em qual das luas acreditar?
Na do céu ou na do mar?

Por isso te peço amor:
Não me vás além mar, equivocada, tentar encontrar!
E se mesmo assim, teimosa, me achares,
Devolve-me...

Porque me havia de calhar
Tão grande mar pra navegar?
E salgado ainda por cima...




Morrer em vida


Tu e eu tínhamos um sonho!
Encontrar um lugar
Onde nos pudéssemos esconder e amar
Porque fomos feitos um para o outro
Como a noite para o escorpião!
Mas dizem astros que não!
Que não haverá aqui ou acolá
Nem um qualquer lugar...

Morrer castigado em vida ou viver errado,
Qual o maior fardo?
Palavras tuas que apedrejei e devolvi ao vento,
Maltratei borboletas que nasceram de nós,
Fiz da flor dada, uma lembrança e da recebida, uma bola de trapos...
Estou cansado de me cansar,
Do pesar da consciência pesada,
Dos porquês de um dia teres sido a mais incompreendida e a mais amada!
Cansado...
De ser floresta vazia de raízes e oxigénio,
De te procurar, porque estás em toda a parte e em parte nenhuma!
De não ouvir um sopro teu, nem ventos de mudança...
Pudesse eu voltar atrás
E não me poria na prateleira das coisas mortas e obsoletas...
Perdoa-me o que não disse, fiz ou não dei e o pouco que amei
Como eu te perdôo o mal que me fazes...
Vertem-se-me lágrimas que não caem ao chão,
Ficam todas presas nos porquês de não te poder ter
Porque também em vida se pode morrer!
Sonhava um casamento de almas em que nos imaginava
num equilíbrio que selava ambas as polaridades...
...a tua e a minha!
E tu estás tão linda...
Ainda te amo...
Ainda te choro e de vez em quando, ainda te soluço...
E sempre te amarei...
Ainda, tanta coisa...
Ainda tanto por doer e dizer...
Ainda me dóis onde a dor mais dói...
Ainda me perco nos teus olhos castanhos...
São relativos e estranhos!
Quando me olham, sérios e perguntadores, não dizem nada!
Convidam-me apenas a pedalar no lodo, sem pedais
E obrigam-me a fumar cada vez mais!
Oxalá me chamassem às fogueiras dos lençóis da tua cama,
Onde faríamos amor todos os dias...
Queria amar-te de mil maneiras e mais algumas que não esperasses,
Queria que tivéssemos sido liberdade, glória e cumplicidade...

Tenho saudades...
Do teu sorriso, do teu olhar inclinado a namorar o meu,
Das prosas de Julieta e Romeu
Que me deixaram refém
De “amo-tes” que diziamos e dos não ditos também...
Saudades...
De andar de mão dada
Numa qualquer rua, esquina ou calçada...
Dos nossos rebentos...
Os que tivemos e ainda vejo
A precisar de um beijo e tantos lhe demos!

O amor,
Se ele me sorrisse,
Eu lá estaria para o receber e matar
O que o matou um dia...
Morrer em vida são pés no chão a cair por um telhado
Que estava certo de amor,
Mas errado, sem alicerces...

A morte,
A que me foi redigida
Por um defensor dado à sorte,
Nem proferida foi ou acusação teve,
Nem fraca, nem forte!
Seria hoje morto em vida
Se me dissesses um “amo-te” aqui e agora, daqueles intemporais e sentidos.
Depois nada. Lágrimas falariam por mim.
Talvez o corpo tremesse por dentro e eu sorrisse por fora
Antes de morrer...

Está escrito nas linhas das mãos, nos corações
Que será noutro amanhã, noutro lugar
Quem sabe em Marte, num qualquer ano
Porque o meu amor é marciano,
Talvez verde e com antenas,
Como eu, maturado...
Apenas...

Se um dia te vir por aí de mãos dadas,
Que seja ao menos o teu conto de fadas,
Porque o lugar que deixastes era o meu.
Até depois...
Uma flor com um “Amo-te” lá dentro...
Toma. É para ti.




O Elevador

Oh! Filme mal-afortunado, que não teve guião nem foi planeado!
No elevador, onde não eram supostos olhares fulminantes,
Alguém pergunta — “Esse olhar, o que me fazia?”
“Calores, suores e algumas dores!” — dizia a dama do engodo...
Mais tarde, na enfermaria:
Roupas caem que nem tordos, umas inteiras, outras nem por isso!
Não se ouvem vozes! Só um silêncio submisso e o ranger dos armários...
Que bem que ela fuma o cachimbo!
Deita fumo, o chocalho! É do ‘vai e vem’, o barulho que se repete!
Da meia-noite às sete,
O que dá leite, é calvo e vai nu, fica bruto, sem tino e estouvado!
É vara que não sabe se come ou é devorada, porque ora faz peso, ora é abafada!
Vale tudo, senhores! E em todo o lado!
Línguas chamam-se, mas nunca pelo nome!
Virilhas desatam à chapada e encontrões
Porque a fome não quer travar nem a sede tem travões!

Oh! Senhores,
Que esta gente não se cansa de imitar coelhos e leões!
Nem a parrachita fica mansa, nem bagos de uva ficam anões!

A madrugada testemunha o que é digno de passadeiras e retratos,
Até qu’ele diz descontente:
“Mas que pôrra, vem lá gente!”
“E se ouvirem!” — dizia ela!
“Melhor arranjar nova morada por cautela!”
Já noutro sítio, como quem à noite rouba um museu,
Ela diz-lhe: “de força!”, pedindo mais porrada!
Diz o de canela tremida à sua criada:
“Ai Jesus! Estará ele acabado ou vai dar à luz?”

São gémeas com certeza,
D'ele a coisa tesa,
E d'ela a arte de tocar instrumentos!




/ ano: 2019 /


Flores


Uma Gardénia sincera pintei, inocentemente de branca!
Flor que a todos enleva, qual Florbela que me Espanca!
Fita-me depois uma Margarida pequenina e inocente,
Ali e acolá, às escondidas da Gardénia e de toda a gente...
Uma Gerbera baloiça alegre e sem saber de nada
É engolida por uma voraz Papoila encantada!
Bela flor, a Irmã do Nenúfar em água mergulhado!
Plantei juntas, estas duas irmãs do meu agrado!
Violeta e Alfazema no meu jardim vieram encontrar
Uma Rosa que queria, num poema ser plantada!
Mas nenhuma das três a viu acabada. A poesia!
Foi de dia, que uma Flor de Laranjeira me deu
Uma honra nua, que na minha lembrança e na sua
Para sempre ficará!
Flores perfeitas, onde as há?
Talvez na Índia ache Orquídeas Rainhas!
Alguém as quer suas, mas eu quero-as minhas!
Veste o Jacinto tatuado, um “Sari” encarnado...
Raro vinho tinto que não passou do noivado!
Um postal me deixaram, em jeito de recado...
Um Lírio sedutor e uma Flor de Lis que me calha...
Jogado à minha sorte, bebo no campo de batalha
Tudo o que há pra pecar: suor, luxúria e pecado!
A Coroa Imperial. Do alto da sua sedutora luz e poder,
Rompe a rombos de machado o porte régio do meu ser!
Fico amansado! Mas a Acácia amarela depois me seduz!
Creio ter espinhos e dor! E tem! Creio ser uma cruz!
Se Deus há no Céu… Ele finalmente me prendou...
Cravo branco, amor ardente, mãe de todas as ofertas,
Inexplicável flor, porque todas as outras desconcertas?
Jasmins e Gladíolos com pétalas a esvoaçar,
Prímulas e Cactos que me querem dar a mão!
Antes partir que vergar, a flores que não o são!
Mas que raio...
Uma flor, numa Flor de Lótus sentada está!
É o que esperava? Será?
Por minha culpa, não!
Antes espinhos virão!
Sai da minha sombra Petúnia! Procura a tua luz!
Sal, azedume e dolo, não são o que me seduz!
Cravo Amarelo, cantas bem mas não me contentas!
Cheirei as cores da tua alma e eram todas cinzentas!
O Açafrão e a Azálea Branca das querelas e traições,
Dos saltos pelas janelas e dos arfares dos pulmões
São como a Rosa Lilás! Não me dizem nada!
A professora Camélia, de grandes pétalas e atraente,
Não se deixou regar! Não era pró meu fino dente!
Aconteceu assim este fado...
Talvez o meu jardim não estivesse bem regado!
Adelfas e Magnólias me aquecem como as aqueço,
De dia, vestem-se às direitas, de noite do avesso!
Pergunto porém
À Tulipa Amarela, que sonhos tens acordados?
Malas comigo feitas ou desfeitas aos bocados?
Giesta, flor que dá calor ao espinho que colhi...
Fiel livro que li! Flor que não partiu. Floriu!
Sorri a Dálias, Cardos e Flores do Campo
Antes de perguntar:
Malmequer ou bem-me-quer, o que queres semear?
Regar tais flores é como ter navio e não ter mar!
Às Begónias colhidas, que me foram dadas,
Angústias e uma flor dei, às flores rejeitadas...
Morreram todas...




E lá tudo era perfeito


Lá, ninguém era cego ou mau olhado
Porque eram todos Reis do Reinado;
Não havia roubos ou ladrões,
Nem corretivos ou cem perdões;
Eram amigas, a pressa e a perfeição;
Quem caçava com gato, tinha cão;
Havia galhos para todos os macacos
E promessas não caiam em sacos;
Águas nunca vinham em bicos,
Os espertos não eram Chicos
E todo o pecado era omisso!
O feiticeiro era amigo do feitiço
E este não se virava a ninguém;
Não havia mentiras a beijar bem,
Todas socavam com verdades;
Casas não tinham portas e grades
Pois não haviam almas gulosas.
Lá dentro havia um mar de rosas
Na carta fechada do casamento
Porque todo o mar era bento.
As rosas não tinham espinhos
E gaviões não seduziam ninhos.
As cercas não eram puladas
Nem por bruxas nem por fadas;
Maridos diabos eram santos;
Não havia querelas pelos cantos;
Judas era coisa que não havia
Nem sequer no dicionário;
O vinho não batia nas cabeças
E a culpa casava-se sempre
Quanto mais não seja
Com o confessionário!




A tua caligrafia


A tua caligrafia é imaculada como as pedras do rio.
A tua letra engomada, como a vaidade de quem a nada se curva.
Letras tuas assim dispostas, em falares e perguntas,
Espalhadas pelas encostas de parágrafos que juntas,
Não param de me cantar!
Andas perdida de mim, como o sapato da Cinderela!
A minha espera já vai alta,
Como a escuridão dos corpos celestes mais distantes do universo.
E depois os Deuses,
Dão-me a luz do dia: a tua caligrafia!
Ela declama pra mim só nos solstícios de Verão!
Esses dias são quentes e longos! Mas são poucos!
Como poucos são os meus sorrisos, que são às direitas como a tua letra!
Mas afinal o que escondem as montras da tua caligrafia?
Amor ou agonia?
O que pensarão os teus olhos nos dias em que te escrevo?
Os meus já pesam, de querer um pequeno casebre que nos bastava!
Tudo o resto, se não viesse, eram amendoins para dar aos macacos apenas...
Vezes sem conta passo-te a pente fino,
Como o amor que fazemos sem tu saberes!
Sou eu que o imagino.
O amor e o cheiro dos teus comeres.
Cheiras-me a cinco filhos e um lar.
Uma casa onde o amor se cante
E onde nos vejo a governar:
Tu princesa, eu infante
E os miúdos nos afazeres de criança!
Queria dar-te o universo de bandeja
Mas ao menos receber uma esperança que se veja!
Depois de te ler, abre-se-me um vazio
Por onde a tristeza cai à terra, como um dominó que tomba todas as palavras que li...
Depois, meto-as na gavetas das coisas que me metem medo
E pergunto-me em segredo e lavado em choro:
Quando será paga a última prestação deste namoro?




Marido itinerante


Tenho mil caras nas algibeiras
Que trouxe de mil países!
Por lá, vi favos em figueiras
Onde cometi mil deslizes
Porque o mel dos figos
Estava perto dos umbigos!

Não há coração que eu plante,
Nem flor que em mim floresça
Porque sou marido itinerante,
Sem remorso que me cresça!

Oh senhores! A minha culpa,
Que já não se sente culpada,
Não sabe se trair é desculpa
Ou se a esposa não é amada!




Gotas de orvalho


Raiar do dia sem sol ou orvalho
É como paixão caída por terra,
Que depois de solta do galho,
É manhã que o amor encerra!

Se gotas de orvalho são vãs
Em raiares do dia que tens tido,
É porque caem nas manhãs
Às quais nada tens oferecido!

Orvalho, que gorado estás,
Matuta nas escolhas feitas,
Se puxam gotas pra trás
Ou se caem às direitas!

Orvalho que à pétala não dá
Nem uma gotícula de amor
É como rosa onde não há
Espinho que cause dor!

Por folhas, galhos e intrigas,
Por onde cai a tua mágoa,
Gota de orvalho, não digas:
“Nunca beberei desta água!”

Terra ardida, sem cor
Colorida por orvalho
Faz renascer a flor,
Faz do fogo, borralho!




De procurar-te, ando perdido!


De procurar-te, ando perdido,
De perdido, ando cansado
De a toda a hora ser traído
Pelo que tenho procurado!

Fará sentido ou é inglório,
Pedir o que tenho pedido
E esperar que o peditório
Não vá por onde tem ido?

Mas se for, alguém me dê
Um alqueire de coragem
Pra pedir como quem vê
No deserto uma miragem!




Nem padre, nem madre, nem horta!


A vida no campo vai torta
Como a dor do meu pesar!
A enxada já não corta!
Nada mais há pra cavar!

Madre, do bem fazer
Sem peso e sem medida,
Porque ousaste fazer
Uma cruz à vida?

Padre, que me fez ver
Como rezar com brilho
Porque ousaste fazer
Uma cruz ao teu filho?

Um, já se despediu!
O outro se esqueceu
Da enxada que partiu
E da horta que morreu!




Bolha de sabão


Ó bolha de sabão
Que levada foste pelo ar,
Em ti voa um coração
Que não sabe amar!

Procuro luz às escuras,
O que quero e não tenho:
Arestas das minhas curas
Limadas ao meu tamanho!

O vento que atraiçoa
Tão abatida e vã espera
Faz-me ser fria pessoa,
Ser quem não era!

Já não tenho restos
De força nas algibeiras,
P’ra entoar protestos
A esperas solteiras!

Ó bolha de sabão
Que não paras de voar,
Que posso fazer senão
Contra o vento, remar?




Sereias apaixonadas!


Já velejei os quatro pontos cardeais à procura de um porto seguro
Daqueles que fazem amor impuro em todos os desembarcadouros e cais
Ou dos que nos querem, mesmo salgados, tempestuosos e despenteados!
Ó vento que me despenteias...
Tanto me sopras a horas em que todas as sereias estão encalhadas
Como nos dias em que tenho a sorte já prometida!
Velejo pelas marés da vida onde sopram nortadas de ventos que beijam bem.
Não são sereias beijoqueiras, são casamenteiras delas próprias!
Oxalá não fossem comigo, essas perdas de tempo!
Mas são!
São pingos de sal que queria ser doce!
São pele e escamas que vertem lágrimas
E que me querem prendar com ouros, finas porcelanas e caxemira.
Outras,
São rajadas de ventos frios, que perseguem marujos peregrinos e fugidios!
Mas quais são afinal, as rotas das sereias que não se apaixonam?
Todo este sal, é doce fazedor de poesia!
É vento que me faz vasculhar palavras e rimas dentro do mar salgado
Onde lambo sílabas e versos
P’ra lhes retirar o sal...




Rum caseiro!


Entrego-te nas mãos o meu jejum, enquanto despojo o teu.
E sem pudor algum, unos, viramos lobo e fingido cordeiro!
Bebo um vaso por inteiro e de seguida mais um!
O terceiro como o primeiro, soube a secura e bom rum!
Por entre runs arfados, acendo mais um cigarro
P’ra dar folga ao que não sei
Ser banal ou bizarro!
Trocamos de nomes, uns nobres, outros reles;
Fundem-se prosas, taras e peles;
Oh minha Deusa, dói-me tudo de te beber;
Tenho a boca seca de te saber de cor;
Os braços gritam queixosos, de te abrir o ventre a rombos de machado!
Bendito o néctar que dá calor e nevoeiro!
Beija bem, é doce mel beijoqueiro!
Não tenho em mim, poro que não chore, nem cigarro que chegue ao fim!
Acendes-me uma fogueira que me quer cortejar,
Aquecer ou talvez amar...
Mas a chama vai fraca, assim como a força do nosso enredo
Que joguei ao lume…
Fico tonto, de tanto olhar o céu, revoado de anjos e demónios!
Uns, querem-me enviuvar, outros casar!
Pergunto aos primeiros:
De que vale amar
Se quase ninguém o sabe fazer?
Talvez a minha sina não seja essa,
Talvez seja só procurar!

Era o que havia:
Amor bastardo, um cinzeiro, lume e rum caseiro!
Bebemos tudo...
O que havia p’ra amar!




Soneto à minh’amada


Minh’amada vi em Novembro.
Há meses que não a vejo.
Tanto a estimo, amo e desejo
Que até dói se m’alembro!

Uma carta ou palavrinha
Por mais pequena que seja
Acordava quem só boceja
Do sonho de seres minha!

Se quiseres, minha flor,
Faz-nos o favor
D'enviares um sinal!

Apressa-te ou eu morro
De tanto pedir socorro
De tanto passar mal...



Tens um querer de quem quer amar?


Não interessa o passado,
Por onde tens andado,
Se és virgem ou rameira,
Calona ou trabalhadeira!

Não interessa a idade,
Se é maior ou metade,
Se és moçoila ou rafada,
Pele frouxa ou esticada!

Não interessa o que fazes,
Que ouros me trazes
Ou se não os tens!
Só pergunto ao que vens:

Só quero saber
Se vieste pra ficar
E se tens um querer
De quem quer amar?



O beijo que não te dei


Por mais que tente
Emudecer o meu trovar,
O meu brado só sente
Vontade de te beijar!

Porque me apaixonei
Pelo que vou roubar:
O beijo que não dei.
Ah, mas vou dar!...



Tulipa Verde!


Tens olho cor de Jade, verdinho;
Cabelo ruivo bravo e castanho;
Coração farto, decoro subidinho;
Dama de elevado tamanho!
És fiel aliada, és bom vinho!

És verde veludo ou cetim
És siso mas estouvada,
Bem-apessoada mas ruim!
És isto: tudo ou nada!
Quero-te não menos que assim:
Seres verdadeiramente amada
Para sempre e até ao fim...



Avps...


Amor que é amor,
Que verdadeiro é,
Para sempre será
Eterna flor cuja fé
Nunca morrerá!



Os teus sapatos!


Será por calçarem pés baratos
Ou porque ninguém os quer?
É que o timbre dos teus sapatos
Irrita mais que tu, mulher!

Fico pálido de espanto
Com o fustigar desse canto,
Da prosa desses sapatos
Que são como tu: chatos!

Não sei se hei-de fugir
Ou ganir sozinho aqui
Porque não os posso ouvir
Nem aos sapatos, nem a ti.

Porque chorar não adianta
Nem resmungar alivia,
Vou cantar...
Pra outra freguesia!



Há beijos assim


Levianos e compridos,
Roubados ou oferecidos,
Molhados pela diabrura
De uma boca bandida e impura!

São beijos com tal fervor,
Que escrituras de amor
São beijos da mistura
Da liberdade e escravatura!

Há beijos assim...
Que declamam pra mim!
Que deixam o paladar cego,
Que nos afagam o ego
Com calores e fervuras,
Pimenta e travessuras!



Oh Clemência!


Minha clemência acabou!
Não sei amar assim!
Não pedi mais do que dou!
Pedi flores do teu jardim
Que a tua alma beijou...

Tuas rosas traiçoeiras
Têm espinhos de cetim!
Nunca se deram por inteiras!
Nunca foram para mim!
Tuas espinhosas roseiras
Deram a flor que me enganou!
Nunca foram verdadeiras
Nunca amaram quem te amou!



Fusão de almas


Poucos nos tocam o coração.
Outras nos tocam a alma. São raros!
E mais raro ainda é a fusão de almas.
Forma-se então um vínculo inquebrável,
que cria um equilíbrio místico entre ambas as polaridades...
...a tua e a minha!



Ovelha branca


Ovelha que pastas a meu lado...
Estou grato pelos encontrões, pelas pisadas e safanões que me destes…
Vêm de negras ovelhas
Ou de lobos traiçoeiros, disfarçados de carneiros e armados com tesouras!
Tesouras que cortam e ensinam...
São as melhores professoras, as facas e tesouras!
Cortam lã e agasalho, mas dão calo e sabedoria pra tosquiar o que escurece:
As cinzentas ou negras, as que não dão leite ao pastor nem aconchego à ovelha do lado...
E aprendi...
A dar leite como o pastor ensinou e fugir da faca que o lobo espetou...
Sou ovelha com lã de aço, cascos refinados, lábios mais calados...
Quero pastar em campos de altos muros,
Onde lobos ficam de fora, tesouras não cortam e facas não espetam...
Sou ovelha solitária...
Sangro onde as bandarilhas dos lobos toureiros espetaram...
Mas não morri, renasci...
Esperando pela ovelha branca
Para lhe apontar o melhor pasto...
Até este acabar...



O que deves esconder

Quem não sabe da tua vida não estraga, não difama, não faz juízos de valor. Protege a tua intimidade. A intimidade da tua família. Protege o teu núcleo duro da opinião dos outros que nem sempre é isenta. Protege a tua família dos olhares alheios pois não sabes o que esses olhares vão fazer com o que viram. Quem divulga os seus problemas, dramas, inseguranças, planos ou conquistas fica mais vulnerável aos abutres desocupados que querem apenas fazer da tua vida a sua ocupação. Não te esqueças que quem ouve um conto acrescenta-lhe um ponto e as pessoas são especialistas em acrescentar muitos pontos sem querer. Agora imagina os que o fazem por querer, por maldade! Acrescentam parágrafos inteiros!

Quem não sabe dos teus projectos não os copia, não os boicota, não impede que eles aconteçam.
E quando os teus projectos já estiverem de pé e na boca do mundo, então já podes comemorar ao lado de quem amas. Depois, enquanto os outros observam a vida que gostariam de ter, tu tens a vida que eles sonham.

Fizeste uma boa acção, ajudaste alguém? Então não te gabes disso. O que vais obter da plateia que queres impressionar são críticas pejorativas que te deixam com a imagem de “gabarolas”. Não há maior valor do que alguém se aperceber da tua bondade, do teu altruísmo pelos teus actos ou pela boca de outros, não pela tua. Tem outro sabor. Isso é humildade. Solidariedade e heroísmo não se apregoam.

A tua vida amorosa e a intimidade atraem os invejosos e os que estão de mal com a vida. Antes de mais é uma questão de respeito. Respeita-te e respeita a pessoa com quem estás.

O teu corpo. Evita fazer o mundo saber de todas as tuas debilidades corporais ou doenças. O teu corpo é algo teu, pessoal. Não o exponhas nem lamentes ao mundo as suas limitações.

A vida dos outros e segredos que te contam são para ficarem contigo. Podemos ter opinião claro, mas divulgar estes assuntos não é característica dos emocionalmente fortes, é dos fracos, dos “fofoqueiros” e dos desocupados. Não sejas um. Cuida da tua vida e não da dos outros.

E onde as pessoas mais gostam de dar a conhecer tudo o que deveriam esconder? Nas redes sociais. Aqui mesmo, no facebook. Quem não tem aquele amigo virtual que não tem onde cair morto, mas que posta no facebook dia sim dia não, jantaradas de naco de vitela e mariscadas de lavagante pra cima? Quem não tem aquele amigo ‘facebokiano’ que se separou recentemente e desancou o companheiro, expondo todos os seus podres? Quem não tem um amigo nas redes sociais que diz estar muito doente mas as fotos do facebook dizem que a praia esta semana estava um ‘must’? Isto para não falar dos que dizem ser primos do Santo António, do São Pedro, de tudo quanto é religioso, mas depois o que se vê no velhaco do seu mural do facebook é comentários xenófobos, de cyberbullying ou racistas? Quem não tem conhecimento de episódios maldosos de pessoas que se aproveitaram das fragilidades que nós próprios colocamos nas redes sociais?
Ah pois é...

Aprende que o silêncio é ouro.
Ergue um muro bem alto para que só os convidados da tua casa possam admirar o teu jardim. As línguas maldosas, os olhos invejosos e as mentes perversas… esses não os deixes entrar na tua casa ou na tua vida. Deixa-os antes na ignorância, na curiosidade e na sua fútil vida.



A beleza de uma mulher


A verdadeira beleza de uma mulher pode ser vista de olhos fechados.
A beleza de cada um está no seu interior, no carácter, na simplicidade do ser, no coração humilde, no que dá ao próximo. É ser segura de si. É ser mulher de objectivos e não desistir deles.
Esta beleza rima com maturidade, é prima da exigência e filha da sinceridade.
Os olhos. Os olhos são o espelho da alma e do carácter. Se o interior for bom, o olhar saberá refletir a beleza interior, o poder escondido, o amor...
A mulher bela quer ser valorizada e conquistada, não dá o seu amor de bandeja ao primeiro caçador de prémios que apareça, nem a quem não lhe saiba dar o devido valor...
Mulher de verdade não é aparência ou vaidade, ela cativa pela atitude. Mulher bela é a mulher que faz! E o que ela faz, é o que a define. É por essas mulheres que um homem se apaixona para a vida!
São essas mulheres que fazem um homem ficar!
São mulheres que marcam, mesmo quando já não estão entre nós!
São as que deixam legados à geração seguinte. Memórias. Histórias. Aprendizagens aos demais.
Este é o tipo de beleza que perdura uma vida inteira.
Mulher de interior belo, tem o homem que quiser pelo tempo que quiser...
Mulher de exterior belo (apenas), tem homem quando eles querem pelo tempo que eles querem...
Para algumas mulheres, o caráter está reduzido a uma mini saia, um decote generoso, maquiagem exagerada, um sapato de marca ou ambições inexistentes...
Ouros, sedas raras ou futilidades são brilhos que o verdadeiro homem não enxerga.
Ele enxerga o tamanho do teu coração. Os valores que moram lá dentro.
Homens de coração cheio, com “h” grande, os que sabem o que querem, não gostam de vulgaridade, preferem simplesmente... a simplicidade.
Pobres daquelas que acreditam ser a beleza exterior, a verdadeira beleza.



A vida é da cor que a pintas


Dá cor à tua tela! Não deixes que pincéis cinzentos retirem brilho à tua vida, à tua tela. A tela é tua! Faz as pazes contigo e ama o quadro que quiseres pintar.
Deus só te dá uma tela em branco depois do arrependimento sincero, depois da introspecção, depois de perceberes que o caminho não está nem no céu, nem cá terra, nem nos outros, está em ti. Deus só te dá a mão se a quiseres receber.
E, com os primeiros passos que terás de ser tu a dar, então Deus dar-te-á a mais bela tela para tu pintares, com os teus sonhos, paz, e felicidade.
Quanto mais depressa perceberes onde está a tua paz e qual é a tua missão nesta vida, mais depressa acaba a tua penitência, a tua revolta, o teu mal-estar.
Se causaste danos, aceita a lei do retorno e aprende com ela.
Se fizeste o bem e não te reconheceram por isso, aprende que o reconhecimento está no dar e não no receber.
Nunca é tarde para pintares a tua tela, para seres feliz, para tentar o desconhecido, para seguires os teus sonhos, para começares do zero, para aprenderes, para ires mais além, para seres mais...
Não podes voltar atrás no tempo, mas podes começar agora a pintar o mais belo quadro da tua vida.
O quadro que gostarias de pintar está na tua resiliência ou na falta dela, está na atitude que não tomas...
A primeira pincelada custa, o resto o embalo ajuda.



Um mundo a arder


Sou de Marte!
Sou Marciano!
Vivo sem arte,
Num mundo aparte,
Num mundo insano
Onde ser humano
É engodo, é engano,
É ser leviano!
Pisam-se flores,
Plantam-se dores,
Matam-se amores,
Cantam-se horrores,
Namoram-se pudores
E dão-se louvores
A quem quer ver
O mundo a arder!



Mil dores por curar


Já acumulei mil dores
De mil feridas por curar,
Tantas quantas as cores
Das que estão por fechar!
Quais as curas ou remédios,
Pra curar os mil tédios
Que me fazem escrever
Mil poemas sem querer?
Mil perdões por pedir,
Mil sorrisos por sorrir,
Mil dores por curar
E mil espinhos por aceitar
Porque sou ser sem dono,
Rei sem trono
De uma vida por viver
Sem sequer saber
Qual dos mil destinos,
Qual dos mil violinos
Hei de tocar!



Lei do retorno


Hoje dás, amanhã recebes
Hoje semeias, amanhã colhes
Hoje és o assassino, amanhã matam-te
Hoje roubas uma lágrima, amanhã alguém te roubará duas
Se está a ser mau é porque ontem plantaste pedras
Se está a ser bom, plantaste flores
Se iluminas o próximo, és iluminado
Se não iluminas ninguém, vais ser apagado
E é assim
O juiz chamado 'Tempo' não te deixará ficar com dividas cá na terra
O que dás ao mundo é o que levas contigo para o além
A solene penitência nada te perdoa, tudo te cobra em vida
Por isso, ama-te, ama o próximo, colhe o que plantaste ontem e vive um dia de cada vez.



Eterna Estrelinha


Quero-te demais!
Quero-te inteirinha!
Quero ir onde vais!
Quero-te só minha!
Ser agulha da tua linha,
Água dos teus arrozais,
Rei da mais bela rainha,
Num castelo ou casinha
Durante mil carnavais!
Seres a eterna estrelinha
Que não largarei mais!



Afrodite


Um quarto fechado, que tem:
Uma Afrodite,
Um silêncio perfeito,
Um abraço quente e trancado,
Um milagre, um tesouro que aconchego e venero
Enquanto o tempo desvairado, corre, sangra e chora
A agonia que vai e vem, como o amor que fazemos.
Cheiras a poesia e orquídeas.
Sabes a rubi doce e amargo!
E quando ainda estás, sinto saudade
Da Valquíria que vai e Afrodite que fica
No meu pensamento...

Valquíria, que me dóis onde a dor mais dói,
No coração que te entreguei.
Dóis-me porque amo as duas!
E as duas és tu.



A vida é uma passagem


É uma passagem, um bilhete que compramos quando nascemos. É qualquer coisa parecida a uma grande viagem que fazemos no maior dos comboios alguma vez construído. Nessa viagem que todos fazemos, os passageiros entram e saem da nossa vida em cada paragem, estação ou apeadeiro.
Há pessoas que ficam na nossa viagem muito tempo, outros vêm e vão sem darmos conta, uns marcam-nos, outros não... mas ninguém é de ninguém! Não há lugares reservados neste comboio, nem a viagem é eterna, nem eterno é o sonho que dela fazemos.
Após entrarmos no comboio, somos encaminhados para a carruagem dos nossos pais. Somos sentados ao colo destes e pensamos que a viagem será sempre com eles e não terá uma última estação. Mas não é assim! Os nossos pais em alguma altura, em alguma estação irão descer. Vão abandonar-nos e então provaremos a dor de ficar sem os passageiros que nos acompanharam desde sempre.
Outras pessoas importantes da nossa viagem também irão subir a bordo do nosso comboio em alguma estação. Esses passageiros importantes serão irmãos, amores das nossas vidas, familiares ou amigos.
Muitos dos que descem do comboio, deixarão um grande vazio nas nossas vidas e outros nem daremos por eles, nem saberemos em que estação saíram.
Alguns dos ocupantes que nos são mais queridos poderão ir em carruagens diferentes da nossa. E durante algumas estações ou para sempre, ficaremos separados. Por vezes esses passageiros voltam à nossa carruagem, outras não. Por vezes, espreitando para a carruagem da frente, vemos que eles acharam um lugar mais aconchegante que o nosso e por vezes voltam e outras não.
Conheceremos todo o tipo de passageiros. Amigos que nos deixarão saudades das conversas, das gargalhadas ou do apoio que nos deram nos piores momentos. Outros passageiros serão nossos parceiros de viagem, mas nos causarão dor e com eles aprenderemos grandes lições, para que a nossa bagagem seja maior ainda. Alguns, ocuparão o lugar do 'amor das nossas vidas' e com eles pensamos viajar muitas e muitas estações. Mas por vezes a realidade é outra e são poucas as estações sentados lado a lado. Passageiros haverá também, que só nas últimas paragens da sua viagem encontrarão alguém para estar sentado a seu lado, até que um deles tenha de sair.
Conheceremos pessoas todas diferentes. Umas boas, com bigode, óculos, barriga e cabelo grisalho, outras com bom coração, refilões, cabelos brancos e que não gostam de abraços.
Outros, humildes, puros e simples, abandonarão o comboio cedo demais. Conheceremos seres com almas bonitas mas com feitios tramados ou outros que serão almas gémeas de nós próprios ou talvez não. E também teremos alguns passageiros ruins que nos fortalecerão a bagagem.
A viagem nunca pára! Só nas estações para mais saídas e entradas de pessoas, de sonhos, dores, vazios, alegrias e tristezas. A grande dúvida é que não sabemos qual será a estação onde teremos de sair, ou onde os nossos passageiros mais chegados terão de sair também.
Certamente, que quando for a minha altura de descer, vou ter saudades de alguns que vão continuar. Os meus filhos terão de seguir a viajem sem mim. Mas acredito, que de alguma maneira, possa saber algo sobre eles. Se chegaram às estações com que sonharam. As principais pelo menos. Se a viagem deles foi alegre e feliz. Ficarei contente se souber que começaram com pouca bagagem, mas que a foram ganhando ao longo das estações. Serei, já fora do comboio, um ser feliz, se souber que contribuí para a bagagem que transportam. Poderei sentar-me no apeadeiro em que saí e adormecer em paz se souber que a minha viagem fez sentido e que valeu a pena.
A graça da vida está nas chegadas e partidas. Com as partidas de quem nos é importante, com os que deixam o nosso comboio, percebemos que temos de valorizar o que temos, e o que temos tem de ser vivido com intensidade e amor. Com as chegadas de novos passageiros, com as vindas renovamos o nosso ser, aprendemos e aumentamos o nosso auto-conhecimento. O entendimento deste processo da vida faz-nos crescer e faz-nos sentir mais leves. Ninguém é de ninguém, nem os filhos são nossos! São de um Deus qualquer que nos emprestou essas belas criaturas por tempo determinado, para que possamos descobrir o auge do verbo amar... apenas!
Nós somos, as pessoas com que nos cruzamos em toda a viagem das nossas vidas! Somos um bocadinho de todas elas. Sobretudo as que nos marcaram pelas melhores e piores razões. Que o lugar vazio que todos nós deixaremos, seja um lugar onde os que continuam a viagem, possam olhar com carinho, exemplo, saudade e boas recordações.



É na dificuldade que se vêm as pessoas


E de repente ou não, a tua vida muda! O inesperado bate-te à porta! O destino lembra-se de trocar todas as tuas voltinhas e mais algumas!
E de repente o destino, com o seu excêntrico poder, resolve baralhar o que já não estava muito arrumadinho e instala-se na tua vida o caos, a tempestade, as incertezas, ansiedades, dúvidas e mais algumas coisas que não contavas...
Geram-se nuvens sobre a tua cabeça. O futuro fica enublado, pouco perceptível. Não enxergas a estrada porque o destino colocou à tua frente nevoeiro. Muito nevoeiro. E pouco vês do que queres ver, do que tens de ver. Mas o nevoeiro passa. Demora o seu tempo, mas passa. A poeira assenta e tu consegues ver novamente. É uma questão de esperar.
Essa espera pode demorar mais ou menos. Depende de muita coisa, mas depende, e em muito, de quem tens a teu lado nos momentos maus da tua vida.
E é então na dificuldade que tu vês quem tens a teu lado.
Estar em dificuldades pode ser uma experiência com muitas surpresas...
Podes receber por exemplo um apoio de alguém que não esperavas com uma importância tal, que os teus nevoeiros começam a desaparecer aos poucos.
Podes encontrar alguém com quem pouco falavas e de repente deste conta que estiveste ao telefone seis horas seguidas que pareceram só duas.
Pode acontecer alguns dos teus generais de longas guerras, juntarem-se a ti e juntos soprarem o teu nevoeiro. Ou não. Depende. Também pode acontecer o oposto. Alguns dos teus mais fieis soldados soprarem o teu nevoeiro, mas na direcção oposta. Ou seja contra ti. E tu ficas com menos visão. Mais baralhado. Outros de quem esperarias apoio ou ajuda, poderão simplesmente olhar para ti e para o teu nevoeiro e não fazer nada. Estarão eles a rezar? Com pena? A desejar maiores nevoeiros? Só eles saberão.
Outros que fizeram ou fazem parte da tua dificuldade, irão dela falar como se de uma novela mexicana se tratasse, somando-lhe capítulos, retirando-lhe verdades, acrescentando-lhe excertos que por acaso lhes dão jeito.
Outros mudam o enredo da tua dificuldade porque simplesmente gostam de ver o circo a arder. Triste.
E ainda existem uns piores que aspiram ser os Reis ou Rainhas da peixaria do mercado do bolhão. Esses são seres que merecem apenas serem ignorados, tal é a sua educação, sensibilidade ou maldade.
Perdoai-lhes Senhor, pois eles das duas uma, ou tiveram uma educação pobre e não sabem mais do que mostram e nós temos de os entender e perdoar! Ou então são pessoas de mal com a vida, daquelas que só estão bem a ladrar disparates, a disparar contra todas as frentes, a pisar tudo e todos conforme a oportunidade. Mas o que essas pessoas não sabem é que, o que elas mais pisam é a própria dignidade. Mas isto só vale, só tem importância a quem importância dá à dignidade!
Não são palavras minhas, mas subscrevo-as na integra. Diz que no sucesso vês a quantidade dos teus amigos e familiares. E que na desgraça vês a qualidade dos mesmos. Verdade não é?


/ ano: 2018 /


Um verdadeiro amor não se esquece!


O teu novo namorado, o teu novo romance ou a tua nova paixão não é nada comparado ao grande amor da tua vida.
Não há substituição possível.
O que te faz sofrer não é o grande amor, é a sua perda!
É pensares que aqueles momentos únicos nunca mais serão vividos.
É a saudade que te faz doer a alma. Isso sim faz-te sofrer.
Um verdadeiro amor, aquele verdadeiro amor, não se esquece.
Porque ele te fez sentir única, amada, feliz, de bem com a vida e te colocou na memória histórias únicas que pertenceram a duas pessoas só.
Se o conseguisses esquecer, terias de esquecer lugares, momentos, gestos únicos, sorrisos, ternuras especiais, preocupações genuínas, abraços que não quiseste largar, beijos intemporais, uniões de corpos ímpares ou palavras únicas que apenas foram ditas para ti. Não é possível.
Nunca esquecerás um amor de verdade, o único que te acontece na vida, apenas aprendes a viver sem ele!
Podes até ter uma pessoa de que gostes bastante, que seja a tampa do teu tacho, que te trate como uma princesa, mas aquele verdadeiro amor que só nos acontece uma vez na vida, vai lá estar sempre bem guardadinho na tua memória e no teu coração.



O papelinho que te namora


Tão certo como o amor que te darei
É a minha vontade de te rimar!
Mas rimar não sei,
Mas posso tentar!
Venho-te assim dizer
O que esconde o meu coração.
Quando estou contigo,
Horas parecem segundos
E segundos são profundos
Sonhos em que te oiço e digo:
És anjo a quem posso falar,
Rir e porque não chorar!
És ser iluminado!
Talvez verde e com antenas,
Como eu, assustado,
Apenas...
Não pensei ser ainda capaz
De falar do que o amor me faz,
De sentir o que me fazes,
De conseguir fazer as pazes
Com o sentimento de amar...
E o imponente universo,
Que uniu forças pra nos juntar,
Escreveu verso atrás de verso,
Para que possamos afagar
Este amor controverso...
Lê com carinho e atenção
Este papelinho que te namora
E se quiseres ou talvez não,
Depois...
Deita-o fora...



Como é que se diz isto a alguém?


Diz-me com que olhos te devo falar?
Se com os que tenho,
Ou com os que t’estão a deixar?
Que poções tenho de beber?
Que marés devo navegar
P’ra que possas entender!

Palavras são pedradas!
Perguntas vazias,
Respostas não dadas...
Resvalámos, sem saber
Que a dor é deste tamanho
E não da que devia ser!
Como olhar um olhar caído?
Como pedir que sorrias,
Se sorrir não faz sentido?
Como dizer a um coração,
Que metade de ti nos une,
Mas a outra não!

Como é que se diz isto a alguém?
Como dizer o que não se diz a ninguém?
Que o fim vai começar...



O meu amor é verde!


Uma bela flor em negro vaso!
É em todas as cores ver só uma;
É ser salvo, por quem nos afunda;
É o tanto, que sabe a tão pouco;
É o demónio em paz e o anjo louco;
É a angustia em protesto;
É o doce ser amargo e indegesto;
É o perto que fica demorado;
É ser maquinista desgovernado;
É o riso tremido;
É gritar sem ser ouvido;
É não ter asas e voar;
É ver mas também é cegar;
É ficar tolo e ajoelhado,
Não saber o que é certo ou errado;
É o coração que fica refém
Da rosa que vai e do beijo que vem;
É por vontade ser acorrentado;
É ser verde e aprisionado
Ao universo que quer juntar,
Até quem já tinha deixado...
De acreditar!
Nesta calçada da prosa aqui digo,
Sentindo frio, sede e dor constante,
Que verde é o meu castigo...
E é por tudo isto que doravante,
No meu universo profano,
O meu amor é marciano...
Talvez verde e com antenas...
... como eu...



Ó tempo que tudo mudas


Amores em desamores,
Luxúrias em paixões,
Alegrias em dores,
Conflitos em perdões
Ou aflitos em salvadores de fraca salvação...
Ternuras em obsessões,
Que viraram feijões
Porque algo cresceu e a coisa não se deu...
Casinhas em mansões,
Caminhadas em uniões,
Porque o amor uniu o que ainda ninguém viu...
E telas em pintores,
Mudos em tenores,
Pedras em corações
Ou gigantes em anões que perceberam...
Que o tempo não muda
O que é verdadeiro...



Bem haja!


Por cantares
Sempre que pedi.
Por me ressuscitares
As vezes que morri.
És anjo e sol,
És guia e farol
Porque lá do céu
Não és juiz,
Nem eu sou réu
Do que faço ou fiz.
Apenas ergues o véu
E falas-me...
E eu oiço
O que o sol me diz!
E em quaisquer mares
Daqui ou d'além,
Se chorares,
Chorarei também!



Uma casinha


Vem construir uma casinha,
Uma pedra tua, outra minha.
Danças tu, canto eu
Um fado que nasceu
Não sei donde, nem porquê...
É coisa que não se vê,
Que do céu caiu,
Como alguém que lê
Um livro que não pediu.



A era do faz de conta!


Parece que vivemos na era do faz de conta!
E o que é o faz de conta? É a vida que algumas pobres alminhas levam!
Exemplos...
Sou fútil e remediado mas tenho de parecer interessante e rico!
Não passo de um abutre trapaceiro, mas quero parecer honesto e fofinho!
Comi salchichas com arroz e bebi laranjada do pingo doce, mas 'postei' no Facebook pernil de cordeiro assado acompanhado por um Cartuxa tinto, reserva claro!
Isto é fazer de conta!
Oh pra eles tão esbeltos e felizes na fotografia, mas o que não se sabe é que a magreza da foto teve hora e meia de 'Photoshop' e a felicidade do casalinho começa de manhã quando cada um vai para o trabalho...
Isto é fazer de conta!
O que fizeste: Aproveitaste o 'Black Friday' para gastares o dinheiro que não tens!
E para quê? Para impressionar pessoas que não gostas...
Diz ela: "Carlinhos meu amor, como eu te amo!"
Em Maio amava o João, em Agosto o Pedro e em Outubro ama o Carlos!
O que foi dito: "Amigaaaa, estás tão giraaaa!!"
O que a hipocrisia pensou: "Ah, se eu tivesse uma varinha mágica, punha-te já vinte quilos de banha nessas ancas e varizes da grossura de dedos nas pernas!
Isto é fazer de conta!
Não são as tuas novas companhias, a tua nova mala Versace ou o teu novo Porsche que fazem de ti melhor, isso não aumenta o teu carácter. Pelo contrário, se com esses luxos fores um belo "cagarolas", então o teu caracter diminui.
Podes falar dez línguas e mesmo assim não passares de um poliglota ignorante!
Podes ser chefe, mas não fazeres a mínima ideia do que é liderar!
Infelizmente venera-se mais a reputação que o caracter!
A preocupação é com o que os outros pensam e com o que acham que têm de parecer.
Mas esquecem-se do caracter! E o pior que te pode acontecer é perderes a maior preciosidade que um ser humano pode ter: o caracter!
O que é feito da transparência, humildade e sinceridade?
Onde andam as pessoas de boa índole? As simples? As genuínas? As de bom coração?
Eu conheço algumas... mas poucas!
Pensa nisto:
És ídolo de alguém?
És admirado por quem?
Tens molhado os pés pelos teus?
Dás atenção aos que te amam?
Que suores ou lágrimas tens secado?
As pessoas têm por ti respeito? Medo? Pena? Ou desdém?
Alguém é um pouco mais feliz hoje do que o mês passado por tua causa?
Pensa por onde tens andado, porque o melhor sitio para estares é nos pensamentos de alguém, nas suas orações ou no seu coração.
E isto a vida só te dá, se tiveres um bom caracter!



Valoriza quem te puxa pra cima!


Todos temos alguém ao lado. Marido, esposa, namorada, primo, amiga... nem que seja o vizinho do lado, o gato ou o periquito!
E a verdade é que uns puxam-nos pra cima e outros pra baixo!
E tu estás a pensar: "a maioria puxa-nos pra baixo!" E é verdade!
É precisamente por isso que tens que valorizar quem te puxa pra cima!
O marido ou a esposa por exemplo, que te puxa pra cima, dá-te liberdade. Apoia-te. Está lá quando o chão te foge. é quem te aceita com os teus defeitos e não te obriga a mudar o que foste nas últimas décadas. É quem te segura na queda. Chama-te à razão quando estás distraído. Empresta-te o seu melhor casaco. Faz dos teus problemas, soluções! Pedes uma mão e recebes duas! São os que te secam as lágrimas, os que te arrancam sorrisos quando não tens razão para sorrir!
Em poucas palavras: são os que fazem dos teus invernos... primaveras!
Ao contrário, os que te puxam pra baixo, geralmente são egoístas. Alguns são lobos bem falantes mas em pele de cordeiros. Cuidado! Pois eles são castradores de sonhos, de amizades e pior: de personalidades!
Eles podem ter amigos, tu não. São os que podem ter prazeres, mas são também os que acham mil razões para os teus prazeres serem desnecessários ou fúteis. As tuas dificuldades não são as deles. Alguns fazem pior ainda, fazem da tua dificuldade, uma maior ainda! Triste. Outros colocam-se à parte ou tentam mudar-te para que sejas tu a melhor servir os interesses... deles!
E quando dás conta, tu já não és tu! És algo à semelhança de quem te puxa pra baixo!
És o que serve os interesses do castrador!
Afasta-te que quem te rouba a essência, a alma!
Abana a árvore de quem tens a teu lado e deixa cair as frutas podres! Deste modo ganhas tempo ao tempo que resta da tua vida e espaço para quem o mereça!
Faz um retiro, uma caminhada ou perde pelo menos cinco minutos, mas pensa nisto: E tu? Quem tens a teu lado?



Assustas-me!


É estranho,
O mel das tuas teias,
Abrir-me no peito este lanho.
E corres-me nas veias
Porque és do tamanho
Do que me semeias!
Não sabia que era assim!
O bom também é ruim!
E padeço baixinho
E às vezes desalinho
Porque cheiras a rubi,
Nirvana, amor e um ninho.
Porque a tua alma sorri
E tem um pedacinho
De tudo o que eu pedi!
E é por o meu santinho
Gostar assim do teu...
Que me assustas!



Não a procures


Não adianta meteres anúncio no jornal, traçares planos ou procurares a felicidade onde te parece mais óbvio procurar!
Ela vem quando menos esperares...
Mas para que ela possa vir, tens de te preparar! Tens de a procurar em ti. Tens de falar muito contigo e pelo tempo que for necessário...
Tens de renunciar ao que achas que ela deveria ser, e em vez disso, amares o que tens!
E depois de te amares, alguém te amará...
Como tu és... Pelo que tu és... e como mais ninguém te vê....
E esse alguém semeará mais felicidade à tua volta, de tal maneira, que saberás que os teus anteriores limites eram pequenos! Que anteriores metas afinal sempre estiveram fora de prazo! Que o 'muito' afinal era só 'um bocadinho' e que 'bocadinhos' afinal eram 'nadas'...
E quando a achares...
Agarra-a bem, rega-a melhor ainda... e entrega-te! Porque a felicidade só aparece para quem chorou, para quem acreditou e para quem já semeou...
Só isso.



O erro está na expectativa


Na expectativa, na esperança, no acreditar, na espera, no confiar...
E porquê?
Porque promessas quebram-se,
Porque esperas alongam-se,
Porque o acreditar trai-nos,
Porque confiança perde-se.
E depois acontece...
Que o prometido não se cumpriu ou raramente se cumpre,
Que a espera foi maior que o esperado,
Que acreditámos no mentiroso,
Que depopsitámos confiança no dissimulado.
Por isso entende que...
As pessoas não estão cá para satisfazer as tuas expectativas,
As pessoas não deveriam precisar umas das outras, antes completarem-se,
Por isso...
Ama-te, não esperes nada de ninguém, não dependas de ninguém, cuida do teu jardim e deixa as borboletas pousarem...
... Umas virão só de passagem, aprecia-as e outras ficarão, estima-as...
Simples não é?



Vive antes de morrer


Vénias...
Ao que deixa saudade,
Ao derrotado com dignidade,
A quem arrisca e petisca,
Ao sexo com faísca,
Ao pecado a recordar,
A quem ganha antes de gastar,
A quem tenta antes de desistir,
Ao que enfrenta em vez de fugir,
Ao engasgado que falou,
Ao envergonhado que beijou,
À cicatriz do guerreiro,
Ao amor verdadeiro,
Ao que toca o coração,
À loucura e à paixão,
À verdade que foi dita
mesmo não sendo bonita,
A quem te faz bem,
A quem dá o que têm,
À paz promovida,
À consciência erguida,
A quem não é resignado,
Ao que alegra o amargurado,
Ao solidário e à comunhão,
À sensatez e ao perdão...
A quem faz acontecer
E a quem vive antes de morrer!



Amor é


O sol querer
Ver a lua beijar
É como dizer
Ao amor que amar
Não irá doer!

Não é ofegação,
Não é palavreado,
Não é adaptação
Nem estar apaixonado,
Amor é zelo e perdão!

Amor é estar à mercê
De um sofrer mudo
Do que a razão não vê,
E acima de tudo
É um não saber porquê!



Ela é esbelta e segura!


Divino o teu talento
Em ser quente travessura,
E eu firme e sedento
De tão erótica criatura,
Já em alto comprimento
Por tua doce textura,
Fico aceso e corpulento,
De forte e ágil armadura,
Porque ao sabor do vento
Danças esbelta e segura!

Venha a tua diabrura
Endurecer o meu cimento,
Deitar fogo na fervura
E ora meigo, ora violento,
Nesta nossa escravatura
Serei teu galo barulhento
Até partir a soldadura,
Até ficar sonolento!



O que eu gosto


Gosto de pessoas inteligentes e de conversar. Não gosto nada de me chatear.
Gosto de fazer as pazes. Dou valor às amizades.
Gosto de pessoas simples e bem-humoradas. Das que dão gargalhadas. Não gosto das que cospem no chão e muito menos das mal-educadas.
Gosto de quem me fala ao coração, do carnaval, daquele amigo da “bjeca” e do licor beirão. Não me importa a cor, sexualidade, clube ou religião! Basta que seja amigo. E se for brincalhão, parvalhão e louco… melhor!
Gosto de gostar de quem eu sei que gosta de mim.
Não gosto da palavra “fim”, prefiro a palavra “começo”. Gosto de aprender com o “tropeço” e levantar-me!
Não gosto das palavras “quermesse” e “borga”. Na escola, não gostei de Miguel Torga, mas gosto de livros e filmes que me fazem pensar. Gosto do rio, mas prefiro o mar. Gosto do cheiro a terra molhada, da pipoca doce e também da salgada!
Gosto do suspense, comédia e trama. Gosto de sexo com quem se ama… e de gelados de máquina.
Gosto da sintonia nos “finalmente”, não gosto de ficar doente, só de amor. Gosto do jantar à luz de velas, detesto querelas, confusões, brigas e muito menos intrigas!
Não gosto que joguem com sentimentos. Gosta da captura de momentos: gosto de instantes parados, de fotografias e polaroids...
Gosto de dançar, comer, cantarolar, ler e do café quente pela manhã.
Gosto dos porquês das crianças...
Gosto de as ver a brincar e de brincar com elas. Não gosto de ver pais a ralhar ou a bater nos filhos. Gosto de gente simples, desafios complicados e poucas complicações a tirar-me o sono.
Gosto de dormir de consciência tranquila e sem ficar chateado com ninguém.
Gosto do ramo de flores que dou e do beijo que vem.
Gosto de olhar nos olhos e que me olhem nos olhos também!
Gosto da família que perdoa a minhas loucuras. Gosto de líderes, não gosto de ditaduras.
Gosto da liberdade... de a dar e de a ter. Gosto do respeito, da fidelidade, do amor no leito e da sinceridade.
Gosto de poesia, rimas e prosa.
Gosto do verde, do preto, branco, mas gosto também do vermelho e até do cor-de-rosa.
Gosto do Sporting, gosto de futebol, gosto de gritar: “golo”!
Gosto de dar e receber consolo. Onde, não importa… Talvez em simples esplanadas, a ver o mar ou um jardim bem tratado. Quando chove gosto de estar abrigado, mas também gosto do sol, do Verão e da água quente das praias do Algarve.
Tudo isto me move… mas há mais...
Acho pirosas, algumas, “tias de cascais”. Se cheios, não gosto de centros comerciais.
Gosto do número 9 e do 7… os outros são banais.
Gosto de aproveitar as manhãs, mas também gosto de dormir até ao meio-dia. No diálogo, gosto de simetria e se for com pronúncia do norte adoro! Também gosto de Lisboa. Tenho dias de não escolher nada à toa. Noutros reina o improviso, a desgarrada, a viagem sem aviso, não programada. São as melhores!
Não gosto de gente “provinciana”, mas gosto das suas comidas. Gosto pouco de comida vegetariana.
Prefiro falar do que enviar sms’s. Gosto de falar, mas também gosto de ouvir...
Não gosto de fugir… mas gosto de correr, andar a pé e sentir-me em forma.
Gosto da bebida fresquinha: água, martini, moscatel e a bela da caipirinha.
No bolo-rei não gosto da fava e no cozido não gosto de chouriço preto.
Gosto disto, não gosto daquilo...
Sou assim...



/ ano: 2017 /


É preciso


Sem respeito, não há amor
Sem confiança, não há lealdade
Sem diálogo, não há convergência
Sem mudança, não há progresso
Sem investimento, não há retorno
Sem mente aberta, não há evolução
Sem trabalho, não há sustento
Sem alicerces, não há construção
Sem perder, não há ganhar
Sem alma, és só um entre muitos
Com passividade, vais ao sabor do vento
E sem tudo isto, não vale a pena continuar...

Não te lamentes nem esperes que mude,
ajusta-te ao que te é preciso!



O que as mulheres querem


O que as mulheres querem está proximamente ligado ao que os homens querem.
Ambos procuram solidez profissional, ter melhores atributos neste ou naquele campo, um lar, bens materiais com certeza, ...mas a verdade é que quase nada, incluindo o sucesso no trabalho, eleva uma mulher tanto quanto ser amada pelo companheiro(a) que ela admira.
Já os homens desejam ser admirados pela parceira que amam, diferente mas próximo. Por meio século, foi-nos dito, que o que as mulheres mais queriam era sucesso profissional e igualdade. Este conceito está a ser ultrapassado pela mulher moderna, que admite cada vez mais, que quer um parceiro para amar. É por isso que quando as mulheres casadas se juntam, elas não falam sobre os seus trabalhos tanto quanto os homens. Entre outras coisas, elas falam sobre o seu homem, se elas estão orgulhosas dele ou não, falam dos filhos, de projetos comuns ou queixam-se do que corre menos bem por exemplo...
Mesmo a maioria das feministas são mais felizes quando casadas com um homem que elas admiram.

As mulheres não querem um anel super caro, basta uma florzinha comprada com carinho e já resolve o problema.
Não querem dormir num palácio, só querem deitar a cabeça no ombro de quem amam.
Não querem a presença física a toda a hora, mas querem saber com quem podem contar se precisarem.
Não querem a password do e-mail, mas querem alguém em quem possam confiar de verdade.
As mulheres querem alguém com quem possam passar o aniversário, o Natal, a Páscoa,... a vida. Fazer parte dos planos... ainda que esses planos sejam apenas a comemoração de alguma coisa banal. O que as mulheres querem é tão simples que parece muito óbvio. Mas não é.
Ainda existem homens que ignoram o básico. Alguns, não são todos. Os homens não são todos iguais.
E o que é que as mulheres admiram num homem? Da minha experiência, de simplesmente viver a vida, cheguei à conclusão de que um homem admirável é aquele que tem três qualidades: força, integridade, ambição. Todas as três são necessárias.
Força sem integridade é machismo.
Integridade sem força ou sem ambição, é ter ao lado um 'pánhonha', desculpem-me a expressão.
E ambição sem integridade faz do homem um bandido bem-sucedido... ou não.
As mulheres são atraídas por homens fortes. Apesar de muitos homens, quando lhes perguntamos o segredo do seu longo casamento, respondem, "Eu aprendi a dizer sempre : Sim, querida", a verdade é que a maioria das mulheres não são atraídas por "Sim, querida" homens. Elas são atraídas para um homem que exibe força no mundo exterior e em casa, como marido e pai. Mas essa força deve vir com integridade. Se isso não acontecer, ele é um homem forte, mas mau. E quando algumas mulheres se apaixonam por homens maus (precisamente por causa do poder da força masculina para atrair as mulheres), a maioria delas não querem um homem desses a longo prazo. E ambição não significa necessariamente que ele é rico, mas sim que ele é trabalhador, que quer evoluir e melhorar.
É por isso, que para a maioria das mulheres, um marido que se senta e assiste televisão a noite toda, todos os dias, não tem valor.
Tudo isto se aplica a homens, a mulheres e à sociedade em geral.
Mulheres desejam ser serem amadas por quem admiram.
Homens querem ser admirados por quem amam.



Sexo Mágico


Nas entranhas do ser humano reside uma energia que tem um potencial gigantesco: o potencial do prazer intenso, do amor sublime, do sexo mágico!
Sexo é uma das mais poderosas energias do ser humano e ela está a ser usada, por muitos, apenas como: ginástica mecânica; consolo por ausência de amor; confusão entre sinónimos, ou não, de amor...
Não gosto dos estereótipos da cultura popular acerca deste tema. Não sou a favor das rapidinhas por sistema, nem das estratégias ou horários pré definidos. Não gosto dos planos A, B ou C, prefiro os planos todos ao molho e consoante a vontade se manifestar.
Gosto do orgasmo retardado, da multiplicidade orgástica, da habilidade para satisfazer o parceiro sem deixar de se ter o próprio prazer. Gosto da parte de cima da língua, que é mais texturada que a ponta. Gosto da superação dos anseios, vergonhas e da conversa aberta do que se quer e gosta. Não gosto de quantidade em prol da qualidade... ou só porque o colega de trabalho diz que passa a noite “naquilo”.

Gosto do politicamente incorreto, do sexo mágico com os 5 sentidos, da ausência de regras, gosto das misturas do selvagem com o tântrico, do fogo com o gelo, do humor com o sério a parecer que vou morrer de prazer. Gosto da sintonia nos “finalmente”, gosto da entrega no ato, da surpresa intemporal e irracional, da ausência de fatores de distração, da intensidade e da ousadia. A ousadia deve ser o limite superior do parceiro menos ousado, a frequência, não sendo os relógios sexuais biologicamente iguais, deve ser um entendimento do que for confortável para ambos e o sexo deve ser feito com amor... com quem se ama. Não condeno quem o faz sem amor, apenas não gosto. Condeno sim, quem não é sincero consigo próprio e, pior ainda, com o parceiro, quem apenas tem um objetivo: prazer momentaneamente egoísta... os sentimentos do outro que se lixem! Isso, eu condeno! Quando se busca qualidade, o fato de se ter uma relação de intimidade com o parceiro soma muitos pontos a favor. Quem não pensar assim ainda não provou o melhor sexo, tem andado a petiscar.
Sexo é uma coisa, amor é outra bem diferente, mas ao juntarmos os dois teremos como resultado o melhor sexo: o sexo mágico!
Gosto destas coisas do amor pelo inteiro, nada pela metade: nem só sexo, nem só amor; metades não me enchem as medidas. Sexo sem amor é beber um galão só com leite; sexo intenso com amor... sou eu! Mas parece que as medidas de muita gente, hoje em dia, se enchem só de metades: metades de sexo sem amor e muitos sem qualidade.
Estão na moda os casalinhos modernos do “olá e vamos prá cama”... e ainda nem um copo beberam. E depois da cama, vem um sorridente “até nunca mais”. Parece que a humanidade rotulou o sexo de pecado banal e corriqueiro; que se faz como quem vai beber uma cerveja: hoje a esta cervejaria, amanhã ao café da outra rua... E não importa a qualidade da cerveja, seja ela portuguesa, alemã, tanto faz, o que importa é beber, mesmo que a vontade não seja muita ou porque se tem de impressionar os amigos! Faz-me confusão o sexo estar a ficar tão banalizado, infelizmente assim como o amor; as posturas machistas com ar pré-histórico e primitivo... impressionante!
Infelizmente, muitos tem uma relação de amor e ódio com o sexo, que é refletida de muitas maneiras: promiscuidade, perversões, intolerância, negação, abusos ou simplesmente ser igual a beber um copo de água, ora da fonte, ora do esgoto... E o que mais me faz confusão é a tara sexual da abstinência. Vai de retro satanás!
Muitos queixam-se da qualidade dos seus relacionamentos sexuais, que fazem durante aquela hora. E já pensaram que provavelmente a razão está nas outras 23 horas do dia? Sexo mágico, naquela hora, só é possível se nas outras 23 houver amor, companheirismo, compreensão e não discussões o tempo todo. A qualidade do sexo está diretamente relacionada com outros fatores existentes no relacionamento, tais como: respeito, transparência, admiração ou confiança. E isto, nada tem a ver com regras ou com pensamentos antiquados de que o amor puro não deixa espaço para a libertinagem; as regras ou limites, cada um faz os seus, tal como diz Nelson Rodrigues “Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava”!

Portanto e em jeito de conclusão, para se obter ou reconquistar um sexo temperado com magia, um sexo mágico, é preciso que o amor seja verdadeiro e que as demais áreas da relação estejam bem de saúde!
Cada aumento dos laços de lealdade, é um passo a mais no sentido de ter um sexo mais cúmplice e satisfatório.



As filhas dos escritores


Do peito nascem-lhes flores.
Dão-lhes canto, cor e alento.
São filhas de trovadores
Entregues a pastores,
Que lhes retiram alimento!

Tivessem escritores, dos cantos
Admiração e reconhecimento
De todos quantos
A dor cobre de negros mantos
De desamores em sofrimento!



Pobre passarinho


Vem devagar, de mansinho,
Em doces pezinhos de lã.
Sorrindo sobre o meu ninho,
Traz-me no bico o passarinho
Uma linda romã!

Com tal engodo, a avezinha
Fustiga-me sem piedade,
E deixo a minha casinha
À sua nova rainha
Por minha ingenuidade!

Da rosa não vi o espinho,
Nem romã, nem maldade,
E no entanto o pobrezinho
Não sou eu, é o passarinho
Que não tem dignidade!



Liberdade a pedir e nada poder!


Da liberdade tão afastadas:
Esmeraldas em fortes gaiolas;
Zebras em jaulas pintadas;
Caixas com caladas violas;
Atrás de grades, mãos atadas
E coelhos em apertadas cartolas...
Querer voar, cantar, ter ou ser,
Querer sorrir, pedir, e nada poder!

Pequena ou grande liberdade,
Pesada ou leve solidão?
Agitado carrossel é calamidade,
Sossegado passeio é servidão.
Do desapego à saudade,
Entre devaneio e razão,
Qual o sabor da plenitude?
Doce deserto ou multidão rude?

Que venturas quereis colorir
Do que não se vê ou espera?
Cego que tudo vê florir,
Que do Inverno vê Primavera,
Que à liberdade pode sorrir,
É, qual sol sorri à quimera,
Partida para uma viagem
De branca tela e bagagem!



Casamento no trilho certo ou errado?


Vós, unidos, ou por Cristo emparelhados,
De membros inquietos, coxas tremidas,
Com sedes, febres, fomes de pecados,
Em ganas e vontades enfurecidas,
Quereis céus abertos ou enublados,
Âncoras ou bonanças fingidas?
Que legados, por que caminhos
Ides vós, juntos ou sozinhos?

Com ajuda escusada ou pedida,
Gritando ou em amena cavaqueira,
Lúcida conversa ou incontida,
Como ides vós, de que maneira,
Ganhar do casamento, a corrida?
Salvar o que resta da fogueira,
Se é que tal esforço vale a pena
Por grande chama ou pequena.

Que fado no altar foi entoado?
Qual a sina, romaria ou destino?
Ides vós no trilho certo ou errado,
Bom ou mau rumo ao céu divino?
Será o negro, verde ou dourado,
O amanhã que dele imagino
Ter a cor mais prudente,
Do casamento, a transparente!



Muro das lamentações


Pavões que se levantam
Baixando decoros e bastiões
Sem darem conta, plantam
No seu muro das lamentações
As vergonhas que cantam
Sem saberem cantar canções!

Diz o ditado que não aprende
O pavão da latente cidadela,
Que desse cantar depende
Pra sonhar ser coisa bela,
E por isso ele acende
À vergonha uma vela!



Amor, solução de todos os conflitos


Por quem tendes vós afinal
Laços feitos, nós engasgados?
Das roseiras do vosso quintal
Perdoais aos espinhos os pecados?
Que passarinhos do vosso beiral
Saciais de braços cruzados?
O amor que se dá, é o que fica
Do que se partilha e abdica.

Tempo, esse devorador avarento
Do amor baptizado de intemporal,
Que os anos tingem de cinzento
O que já foi da cor da cal.
Para remediar tal desalento
E a cor da neve ser a final,
Candeias iluminem o que definha
A branca neve, a vossa e a minha!

Amor de mãe, pai ou conjugal,
Do estranho ao parente,
Amar o próximo é igual
A concertar o gemido doente,
A arrancar qualquer mal
E a fortalecer a fraca gente.
Solução de todos os conflitos,
Dores, desamores e gritos!



Sou trovador velhaco


Sou trovador velhaco, de zelo apostólico
Com o senso, que bem não sei se ajuíza;
Censuro o mundo real e o simbólico
Com vara curta que o justo enfatiza.
O meu e o outro mundo diabólico,
O que eu queria e o que hostiliza,
Qual doente inferno e céu católico,
Que a minha prosa aqui satiriza
Cantando e ralhando a poesia,
Ora afago quente, ora chibata fria!



Ser poeta: Deus dos enredos e do tempo


Letras e palavras são anarquias,
Que pintadas de cinzento,
Chamam por metáforas e analogias
Ao sabor da inspiração do vento.
Vento que tão bem assobias
E tão longo é teu chamamento,
Quanto mais a dor me afias
Maior é de ti, o meu alimento!
Desamores e dores que me envias
Fazem-me Deus dos enredos e do tempo!
Pinto infernos de lindas pradarias!
Anjos visto de negro fardamento!
Hoje sou rei de todas as bigamias,
Amanhã servo do meu casamento!
Ser da poesia escravo todos os dias,
Mas o que quero a cada momento!



O fado mais bem feito


Cai a noite, nasce a lua,
Finda o dia e nascemos nós!
Sopra o vento que apazigua
A minha alma e a tua
Enquanto estamos a sós!

Sob o luar mais perfeito,
Cantamos a uma só voz
O fado mais bem feito
Deste amor insuspeito,
Não querendo ficar sós!

Vai-se a lua, o galo canta,
Nasce o dia e ficamos sós!
Solidão que se agiganta
Até vir a lua santa
E de novo sermos ‘nós’!



Velhice no ponto final


Virgulas, já as perdi no caminho
Onde atalhos vão dar a pontos finais;
Reticências, rezo-as sempre sozinho
Pra escapar a parágrafos canibais!
Aos poucos vislumbro o último vinho
Que beberei não sei de que punhais!
Ter menos tempo é ter mais a perder,
Quase nu e tanto pra escrever!

São horas lentas, frias e demoradas,
Que a velhice aceitou e por onde há
Pouca agitação e muitos nadas;
Estou onde a televisão está
E vejo-a com pálpebras desmaiadas;
Do que lá vejo e oiço, bastará
A minha ruidosa cama
E a visita de quem me ama...

Sou as cruzes e rasgos do desfiladeiro,
Cheio de marcas que contam histórias;
Tenho no bolso um andar batoteiro,
Relógios calcinados, que não dão horas,
Um olhar obsoleto, um falar trapaceiro,
Que pergunta quantas mais memórias
Terei com o meu melhor fato?
Oh, destino ingrato...



O forte cai e corre


A vida assim encarar:
Ser coruja errante
Ou papagaio ignorante,
É diferença entre caminhar
Ou cair num instante!

Ao cair, que se aprenda
Com o descuido passado,
Ou serás enterrado
Pela vida, pela fenda
Onde caístes à bocado!

O fraco a morte planta,
O forte cai e corre
Mas se agiganta!
Um, hoje se levanta,
O outro, amanhã morre!



A flor de lótus almejada


Sou flor por nascer, por germinar,
Como ela procuro a esperança remota
Do sol, vida e paz um dia abraçar!
Vagueando por onde a flor brota,
Eis que em mim o caule sinto rasgar
Da flor nascida, à luz devota!
Da minha alma antes alagada
Nasce a bela flor de lótus almejada.



Morte por entre dedos


É ver areia fina escoar entre dedos
E o relógio que não pára de andar!
Apontam os ponteiros cruéis torpedos
A horas que não páram de contar
As areias finas dos meus medos
Que a mão da esperança quer fechar!
Será que mão fechada o tempo segura
E a esperançosa vida nela perdura?



Amigos, são estrelas, sóis com ouvidos


Amigos, são estrelas, sóis com ouvidos,
Que nos dão ombros, calor e luz;
São tesouros, frutos amadurecidos
Por laços que a amizade produz
Em entregas de afetos e gemidos
Como Cristo se entregou à cruz.
Laços por punhais desfeitos,
Jamais serão mantidos ou refeitos.

Que fiéis amigos conservais,
Daqueles que o tempo não levou,
Dos que calam dores tais,
Que a própria dor já calcinou?
Teriam sido cartas ou postais,
Cantares que ninguém cantou
Ou arrogâncias não contidas
Que causaram vossas feridas?

Quem por vós tem molhado os pés?
Que cimento vos une, vos apega?
Em tempestades e vorazes marés,
Por onde a amizade navega,
Quem salva quem, do revés?
Quem é o carregado e quem carrega?
Suores e lágrimas por vós secadas
São anjos, amizades somadas.



Batalhas da nossa cama


Vem quente, linda, com o cio,
Traz teus olhos de serpente,
Vem inocente, com desbocado feitio,
Assim te espero impaciente,
Serei teu lobo faminto vadio,
Até meu malho leiteiro ficar impotente
E que expluda a cama em euforia,
De tanto clímax, tanta pornografia!

Quero tua língua indecente,
Em gritos e gemidos alucinados,
Senti-la invadir meu corpo ardente,
Por entre algemas e cadeados,
Ficar com carnes firmes e potente,
Pra te possuir de todos os lados.

Vem em labaredas, nu integral,
Saciar-me por entre tuas fendas,
Vem-te desmedida, como habitual,
Quero-te meiga, bruta, olhos com vendas,
Pra desvendares meu longo punhal,
E luxúrias e tesões serão tuas prendas.

Bebe deste meu vinho imoral,
Em minhas uvas penduradas,
Em nome do prazer carnal
E almas no amor viciadas,
Celebremos por anos este ritual,
Dos entardeceres às madrugadas
E que sempre na tua companhia,
Adormeça assim a minha poesia.

Batalhas estas da nossa cama,
que são segredos de quem ama.



Ontem, hoje e amanhã


Que saibas que superei hoje,
o ponto mais alto, de onde ontem, te amei.
Cada singelo 'amo-te' de hoje,
é mais do que qualquer 'amo-te',
floreado ou adjetivado de ontem.

Que amanhã seja um hoje mais refinado.
Vivamos hoje, porque amanhã não sei e ontem já era.
Que ontens difíceis, por amanhãs, sejam passado.
Aprendamos hoje, com quedas de ontem
e que escombros sejam alicerces de hoje e amanhã.

Curem-se ontens negros,
para vivermos hojes em branco,
por amanhãs cor-de-rosa!
Se ontens fossem hojes,
hojes e amanhãs seriam diferentes!
Mas não são, por isso:
ontem é preto, aprendamos,
hoje é branco, escrevamos,
amanhã é cor-de-rosa, sonhemos!
Hoje é mais,
porque ontem foi menos
e amanhã será melhor.

Obrigado pela definição de hoje de amar,
por resistires ontem, pelo teu hoje
e por me amares ontem, hoje e amanhã.

Por todos os teus ontens e hojes,
tu és quem eu quero,
para o meu hoje e todos os amanhãs.

Amo-te...



/ ano: 2016 /


E tudo começa com o coração...


Que o coração seja teu bem mais precioso;
Que por preciosismos, não questiones o que temos;
Que tenhamos nas desavenças, pazes e diálogo;
Que possa dialogar contigo, mais do que falo aos meus botões;
Que me abotoes com o silêncio, quando precisar estar calado;
Que não impere o silêncio, quando o diálogo é a chave;
Que a chave dos teus objectivos seja igual à minha;
Que os meus favores, contigo tenham mais sabor;
Que o sabor do teu trabalho me deixe orgulhoso;
Que o orgulho na família seja um valor meu e teu;
Que o teu outro lado, seja o meu;
Que os meus sucessos sejam alegrias tuas;
Que tuas alegrias sejam o meu alimento;
Que comas comigo 100kg de sal, até o primeiro de nós partir;
Que a loucura seja o sal da nossa refeição;
Que me comas as vezes que quiseres e eu morra de prazer;
Que o prazer seja também nas outras 23 horas do dia;
Que sejas meu anjo de dia e meu demónio à noite;
Que das noites se faça carnaval e dos dias natal;

Que me conheças melhor do que eu,
dar-te-ei tudo o que sou, mais o que arrancares de mim,
mas nunca percas o teu bem mais precioso, o coração!



O meu jardim


Borboleta,
que em tão negro jardim queres entrar,
que me queres trazer flores ou espinhos,
não tragas
e não entres...
Fica à porta, espreita o que está à tua frente.

Consegues ver, porque lá dentro estão velas.
As acesas, rezam por amores acabados,
as apagadas, por calvários que nunca foram amores.

Diante dos teus olhos
estão mármores frios e negros.
Se reparares com atenção,
em cima desses mármores, estão fotografias.
São fotografias de pessoas,
a quem aos meus filhos direi, que eram amigos,
porque foi com eles
que passei os melhores anos da minha vida.

À tua direita, a terra é estéril.
As flores que vês, vestidas de negro, não são flores!
São de pedra.
Ali jazem fracassos
em forma de mágoas, mentiras, traições e abandonos.

À esquerda, ervas daninhas.
Coroas de flores, por tudo o que foi em vão,
por sorrisos e lágrimas, alegrias e tristezas,
noites inesquecíveis, noites de espera agoniante,
cartas e fotografias que se queimaram,
ouro que se vendeu, bens que se perderam,
recomeços extasiantes, tropeços estúpidos
e sonhos que não se tornaram realidade.

Ao fundo, está um pedaço de terra.
Só tem uma linda flor.
Só tenho essa.
É para a trocar pelo resto da minha vida,
por companheirismo, amor e amizade,
tudo junto!

Por tudo isto, borboleta,
se vieres só de passagem,
não abras a porta do meu jardim!
Mas se vieres para ficar,
se estrelas e constelações quiseres enfrentar,
se tratares o meu jardim como eu tratarei o teu,
entra, porque estive a vida inteira à tua espera!



Que me guardes onde eu te guardo...


Quem me fez descurar valores,
trocar quem sabe de companhia,
querer vivenciar novos sabores,
o descernimento tanto desobedecia.

Saltar a cerca, há quem diga,
dá no perigo de se apaixonar.
Ganha-se o amor? Perde-se a amiga?
Vá-se lá saber ou adivinhar!

A paixão depressa derreteu,
o brilho luxurioso da amizade,
porque o amor não apareceu
talvez pela sua fragilidade.

A minha prosa agora sossega,
por esta triste melancolia.
A faísca que já não péga
e tão bem que pegou um dia.

Desejando-te, o que não te posso dar,
que tenhas o que não tenho,
que faças o que não fiz,
que sejas quem não fui,
que encontres quem mereças,
mas que me guardes onde eu te guardo...
... no coração!



Preciso do teu colo, mãe!


Da tua humilde sabedoria,
que voltes, não vás embora,
quem tudo sabe, tudo sabia,
consolar-me como outrora
e das palavras fazeres poesia.

Há fogo aqui no inferno!
Desce daí, desse lugar divino,
ou morro eu deste inverno,
para no céu ser teu inquilino
e ter teu colo materno.

Concedendo-me a ousadia,
de a Deus poder falar,
sobre ti lhe diria:
"mande hoje executar,
quem te levou um dia!"



Há dias e dias...


Há dias em que olho para ti com ternura num olho e regalo no outro.
Há dias em que a tua ausência me entristece a alma.
Dias há, em que o meu coração está simultaneamente triste e alegre
como o de hoje!
Mas também há dias bonitos: hoje e amanhã!
Há dias, que sendo iguais a tantos outros, são para mim diferentes e únicos.
Há dias em que não te vejo há três dias e amo-te mais ainda!

Tenho o coração por ti a bater.
O amor está maior do que era!
Dias, sem ti, atacam-me o coração como uma fera!
És a mulher que amo cada vez mais!
Dias sem a tua presença, são simplesmente banais.
Mas...
Amanhã é dia de te ter nos meus braços!

Dias na tua companhia, dias na tua ausência;
dias que passam a correr, dias em que falta paciência,
dias tão bonitos, outros nem por isso.
Sem ti, parece que tenho um feitiço!

Frases vazias no ar,
são tão distantes como o mar.
Sozinho, dou por mim a divagar...
Vejo-te com outro olhar,
olhar que é apenas o meu.
A tua ausência transforma-me...
O que foi que me deu?

A ti... dar-te-ei,
o amor que mereces receber!
Sei que não tens o teu coração fechado,
eu para ti nunca fecharei o meu,
pois tocaste-me com o teu amor,
e a marca ficou lá,
e digo-te desde já,
que para sempre te quero ter,
e no meu coração vais eternamente viver!



O Filtro


É preciso na vida, dar muito uso ao nosso filtro!
Filtrar, separar o trigo do joio, confiar desconfiando,
ter um, dois, dez ou se preciso cinquenta pés atrás.

Para começar temos de ir às compras. E comprar um filtro da melhor qualidade possível. Pois é com esse filtro que vamos filtrar tudo na nossa vida: amizades, amores, vida profissional, comportamentos, valores, decisões, tudo!
Há que filtrar como os outros se aproximam e se mantém a nosso lado. A reciprocidade que vai havendo, ou não. Os interesses ou objetivos. As ações, o que se vê que é palpável, não o que se ouve, o que disseram. Filtrar as lágrimas dessas pessoas, deixar o filtro perceber se são de crocodilo ou genuínas. Já agora recomendo um extra importante na compra do teu filtro: Filtro inteligente. Pois os filtros inteligentes detetam gente problemática, mentirosa, cínica, maldosa, as gentes dos esquemas, dos objetivos a qualquer preço, entre outras.
É preciso deixar o filtro fazer o seu trabalho, demorar o seu tempo.
E depois, ouvi-lo e confiar nos seus relatórios conclusivos.
Se o filtro estiver comprometido, avariado, roto ou se for de má qualidade, as nossas decisões, em função do que o filtro concluiu, do que o filtro nos aconselha, serão erradas! E o que começa errado, termina errado, nunca terá um desfecho feliz.

Deixa que o teu filtro te afaste de caminhos que não levam a lado nenhum, de pessoas hipócritas, do incorreto, do desumano, da infelicidade, do desgosto, de gente que usa, de personagens a preto e branco, do pessoal das meias verdades, dos conspiradores disfarçados, de gente arrogante, dos que acham que os defeitos são sempre dos outros, dos apunhaladores de costas, dos doces mentirosos, enfim do que não é bom.

E como resultado, em vez de decepções por falta de uso do filtro, teremos novos caminhos, começos corretos, tropeços que não aconteceram, prioridades que não o eram, prioridades que foram e já não o são, olhares para trás que agora são para a frente, vazios ocupados por futilidade, agora preenchidos com verdades, de pessoas bem resolvidas, que transpiram alegria e bem querer ao próximo.

Não rezes por milagres, não te queixes dos azares, nem esperes ser salvo por ninguém. Salva-te a ti mesmo, usando um bom filtro!
E nas tuas prioridades, coloca o filtro logo a seguir à tua família e ao teu amor próprio.
Se não tens um filtro ou o que tens, não funciona, compra um!
Se está estragado, arranja-o depressa!
Se não o fizeres, vais sofrer, porque aquário sem filtro ou computador sem anti-vírus, a vida vai-te bater forte!
Filtra sempre e não te esqueças de lhe fazer a devida manutenção!
Pouco tempo da tua vida sem um filtro e podes ser dado como morto mesmo antes do teu funeral, pode colocar-te na posição de morreres antes da hora da tua morte!



Coisas a fazer antes de casar...


Casar é uma etapa decisiva na vida de qualquer pessoa. E antes que faça um grande erro na sua vida, vale a pena pensar se sabe o suficiente de si e do seu parceiro, bem como ter a certeza que aproveitou a “solteirice” ao máximo.

Dizem que para se conhecer alguém, minimamente bem, é preciso comer um quilo de sal, juntos. Leva tempo. Muito tempo! Mas, por incrível que pareça muitas pessoas pensam em casar só com umas, sei lá... 50 gramas de sal. O resto vai-se comendo na viagem... Política errada!

O propósito do namoro… convém ter a noção que, este período de relacionamento não serve para passar tempo. Serve para conhecer, afinal de contas, quem se espera que seja o nosso parceiro para o resto da vida. Certo? Simples de perceber, não é? Temos de não deixar a paixão, inicialmente intensa, atrapalhar o raciocínio lógico e o bom senso. Aos vinte anos não se sabe nada da vida, e algumas pessoas nem aos trinta, mas adiante...

Cá vão dois conselhos importantes:

Primeiro: já escutou a opinião de alguém que realmente lhe quer bem? Pai ou mãe por exemplo. Se não,faça-o.

Segundo: esse alguém tem capacidade intelectual e experiência de vida para o aconselhar? Eu por exemplo... não há pessoa que me queira tanto bem como o meu pai, mas se eu precisar de um conselho sobre croché (estou a fazer uma colcha), o meu pai, que o único “ponto” cruz que sabe fazer é no totobola, não iria ser o eleito com certeza!

Comecemos pelo mais importante! Questões que devem ser respondidas individualmente: sabe o que quer da vida? É juntar os trapinhos que vai fazer de si uma pessoa feliz e realizada? Tem noção das privações e do que implica casar? E a tal pessoa, o(a) “escolhido(a)”, já refletiu sobre estas questões? Basta um dos dois estar a dar um passo destes, motivado pelas razões erradas, e o casamento não vai longe!

Questões que devem ser alvo da atenção de ambos: os parceiros correspondem às expectativas amorosas um do outro? Já discutiram se pretendem ter filhos? Se está a pensar casar e ainda não falaram deste assunto é melhor não começar já a pensar na vestimenta e na boda! Há clareza na divisão das obrigações financeiras e nos objetivos de cada um? Pode não ser um problema, mas para muitos casais é um dos maiores, sabia? As preferências e desvaneios sexuais de cada um foram discutidas abertamente? (um pequeno aparte... para além de discutidas, foram realizadas também?) Os medos e fantasias dos parceiros são conhecidos? Conhecem as crenças e a espiritualidade um do outro? Gostam e respeitam o círculo de amigos de ambos? Existe respeito à família de cada um? Até que ponto os pais vão interferir no casamento? Ele(a) não trabalha, não faz nada? Vive à custa dos pais, é preguiçoso(a)? Atenção, porque depois de casar... é igual... só que às tuas custas.

Resumindo... Os parceiros estão certos dos compromissos e obrigações de um casamento, mesmo diante das dificuldades que irão surgir? Estamos cansados de saber que a vida muda depois do casamento. Passamos a dar prioridade à vida a dois e, às vezes, as vontades pessoais ficam em segundo plano. Mas... isso não faz diferença se fizer o que passo a descrever...Ingerir hidratos de carbono: é melhor antes, porque depois eles vão acumulando cada vez mais. Fazer uma viagem internacional ou acampar com amigos: ah pois é!... depois também pode viajar ou acampar, mas as condições são outras, tais como ter o marido/ mulher por perto ou dois filhos a querer destruir... perdão... brincar no acampamento! Romances de verão: Não está à espera de continuar com este hábito, pois não? Apaixonar-se pel apessoa errada (esta é uma das mais fáceis): mais vale antes, do que casar com ele(a). E por falar em casamento… não se pode esquecer de uma boa despedida de solteiro(a). Se não tiver ideias, escolha a sua amizade mais hábil ou “práfrentex” para organizar a coisa em grande. Ter um sexy friend, ou melhor, um amigo disponível para a hora que quiser... mais uma para largar. Pense antes que ao casar, vai ganhar um sexy friend... para toda a vida!! Se não está certa de todos estes itens, volte a ler o texto do princípio, mas agora com o seu parceiro a seu lado. Felicidades!



Poesia para o amor


Ó reciprocidade repentina,
que me invade a alma,
fiquei nervoso, sem calma,
por ti embeiçado, bela Carolina!

O que é que se me está a crescer,
que me devolve a vontade de escrever,
escrever poesia para o amor,
amor ilusão e pecador.
Deve ser feitiço ou magia,
atração e algo mais que sentia,
que me levou em passo acelerado,
correr atrás do teu beijo apaixonado.

Soube a pouco o beijo de fugida,
Porém uma vontade enorme de repetir.
Devo continuar ou desistir,
com esta aventura proibida?
Não sei...

Tenho tanto chamamento,
em escrever poesia para o amor,
como desejo pecador,
de nossos corpos em entrosamento!

E aconteceu...
O doce pecado atender,
o enpernamento cometer,
corpos em sintonia,
coração em arritmia
e continuo sem saber,
a razão desta loucura,
desta estranha cozedura,
em que me fui meter!

Poesia para o amor,
espero que me faça entender,
não quero ver a caneta adoecer,
nem ter de passar o corretor.

Aqueço...
Arrefeço...
Enlouqueço...
De prazer...

Um beijo e até sempre.



Perder uma mãe


Um exemplo de mulher, zelo, aprumo, honestidade ou simplicidade.

Uma mulher de trabalho, esposa dedicada, extremosa na lida da casa, boa avó, excelente mãe, humilde, generosa, ‘primeiro os outros depois eu’, mãos largas, querida por todos, doce, meiga, linda... Ultima morada: Hospital de Stª Maria.

Nunca levei um choque tão grande na vida, como no dia 27 de Junho de 2011 ás 23h45. Foi-se toda a esperança natural de quem não quer aceitar o que o injusto destino já me ia avisando à semanas. Perder uma mãe em muito pouco tempo, sem estar à espera e minimamente preparado, foi como ver areia fina escoar pelos dedos sem conseguir fechar a mão. Falar com o padre da paróquia, a seguir com o bispo, ser encaminhado para o Papa e este dizer para rezar!... É sofrer um drástico golpe ao que o meu pai chama de “núcleo duro”. “O fim do terramoto”, palavras do meu pai. Nunca chorei de maneira tão esquisita e dolorosa! Fiquei manco e tenho medo de ficar sem andar! Não se está preparado para uma rasteira destas, aos vinte, trinta ou quarenta anos!!

Afinal isto não acontece só aos outros! Certamente que me vai ficar para sempre na memória, as ‘viagens’ casa - hospital e vice-versa. O coração aperta ainda nem estacionei o carro no parque. Entro pelo serviço de neurologia a dentro, como que se fosse atrasadíssimo, em passo acelerado! Vezes sem conta perguntei ao incansável do meu pai: “e notícias?” A resposta era sempre a mesma: “Nada de relevante”, “Tudo negativo”, ou pior que isso, falsas expectativas dadas por médicos à nora.
Os braços magoados, as mãos sem reação, a respiração fora do normal, os olhos fechados, o chamar pela minha mãe sem resposta! Sentir-lhe o cheiro e pensar se será a ultima vez! A pele gelada, a face deformada...
Estamos habituados a ir aos velórios e funerais dos outros, não dos nossos. A indiferença de alguns, as palavras banais e da praxe de outros e o apoio extraordinário de poucos e de um ou outro que não esperávamos! Só quem um dia já passou por isto, sabe dar o valor ou dizer as palavras mais sensatas e acertadas. Nenhumas palavras podem consolar ou amenizar a dor. As lágrimas desobedecem quando temos de as controlar. Estar no velório de alguém como a nossa mãe, é sentir o olhar de pena dos outros queimar a nossa face, é querer estar egoisticamente ali sozinho, mas ao mesmo tempo ter a sala cheia de pessoas queridas, espalhadas por aquele jardim de flores.
Perder uma mãe é... sentir frio, sede, dor constante, é o doce ser amargo, é sentimento de culpa pelo que ficou por dizer ou fazer, é ter de ir trabalhar e nos momentos mais difíceis, ter cara normal e mostrar ter a força que todos recomendam, é não gostar de ouvir palavras como “partir” ou “saudade”... é ter desorientação, falta de discernimento, é incapacidade de oferecer proteção contra a dor de pai ou irmã. Perder uma mãe é querer conversar mais com o outro alicerce, sentir a dor do meu pai (foram quarenta anos), tortura o estado de espírito. É andar num constante carrossel de emoções, ora estar a rir com um amigo de uma qualquer situação banal, ora cinco minutos depois, já sozinho, estar completamente na mer..! É estar quase sempre com os mesmos pensamentos presentes, como por exemplo: o facto de já não existir quem me viu nascer e me criou, quem me aturou, quem aparou todas as asneiras. Passam pela cabeça deduções óbvias mas estranhas ao mesmo tempo. Estou numa situação diferente. Os outros tem mãe e eu não!
Faz-me confusão estar próximo de algumas mães com quem lido mais regularmente. São mães de amigos ou familiares e eu já não tenho a minha!
Queria saber onde estás, se estás bem de saúde e se estás feliz... Queria um sinal teu por mais pequeno que seja. Dava tudo por um beijo teu neste momento. Mas não é possível. Dá vontade de trocar a os adjetivos “duro” ou “difícil” por palavreado impróprio. Apetece-me abraçar um prédio de cem andares e derruba-lo à força!! Mas não se pode. Prefiro pensar que ganhei um anjo da guarda e não lhe quero dar motivos para, onde quer que esteja, ficar triste.
Amo-te muito Mãe!


Natal antissocial


Em vez de pr'aqui estar a dizer,
que Natal é festividade,
alegria e bondade,
famílias juntas em harmonia,
o bolo rei, o coscorão e a azevia,
os presentes abrir
e o pinheiro a luzir...

... falemos antes de outro Natal,
O antissocial.

Há quem nunca nada receba
e mesmo assim não perceba
a misteriosa razão
de outros, que tudo dão.
Há os que muito recebem,
Os mesmos que tudo dão,
talvez os que se apercebem,
que dar e receber é tradição.
Quadra esta por vezes cheia
de gente que nos rodeia
de cinismo e falsidade.
Convida-se sem vontade,
come-se por três dias
e bebe-se sem moderação.
Amizades que viraram antipatias
a quem falamos por obrigação,
desculpas esfarrapadas
em mentiras carregadas
aos que nos são chegados:
filhos, irmãos e outros ignorados.
Convites que não foram feitos
por desavenças nos leitos
de famílias que não existem.
E assim persistem
outros natais,
os antissociais...


Autor do Conteúdo...

Luis Mateus. "Escritos de Luis Mateus", https://melhores-sites.pt/escritos-luis-mateus.html / Acedido em: 2024, Julho 14. © Carpeus

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